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CONSCIÊNCIA HUMANA

por

Mais amor e respeito ao próximo

 

Amar, amar e amar! É tudo que o ser humano precisa, merece e deve fazer pelo próximo, pelo mundo. Amar sobre todas as coisas e sob todos os pretextos. Amar acordado, dormir amando, acordar com amor. Amor é tudo!
 
A vida perpassa o sentido formal da palavra amor. Fora de qualquer razão, transcende o real e o figurado, toma conta do “eu” e liberta para o amor. O amor aos familiares, aos amigos. Amor a todas aquelas pessoas com quem convivemos, ou com quem acabamos de conhecer, amor até mesmo ao desconhecido.
 
O corredor da alma é um caminho cheio de vida e mistérios. Ele leva a uma janela que ao nos debruçarmos chegamos a um lugar jamais pensado: o da consciência, da real posição do ser humano frente ao ser humano. Sem sobrepujar, sem importar a cor da pele, o formato dos olhos, a bolsa que carrega, a roupa que veste, o carro que dirige, o lugar onde mora. A consciência nos iguala.
 
E por falar em consciência, no último dia 20 de novembro foi comemorado o Dia da Consciência Negra. Tal fato fez indagar-me: o que é mesmo consciência negra? De que ela se difere das consciências branca, parda, mameluca? Não sabia se comemorava por ser descendente de negro com branco – e  com isso me considerar e ser um negro – ou se aprofundava minha reflexão sobre o mote desse projeto de lei que instituiu o aludido feriado. 
 
O Maranhão foi um dos estados que adotou o aludido dia 20 como feriado. Embora muito debate surja em torno do assunto, acredito ser válido que o dia seja guardado como um marco para a promoção da igualdade, independente da cor que se carrega na pele.
 
Não se pode negar a dívida que o Brasil carrega com sua população negra. Embora não exista uma segregação institucionalizada, como ocorrera em outros países, ainda persiste uma segregação que se dá pela conduta e comportamento para com aqueles que possuem o tom da pele mais escuro. Convém lembrar que pós escravidão os negros foram largados à própria sorte, sem emprego, sem moradia, sem dignidade.
 
Daí porque é importante o enfrentamento dessa questão, mas tomando-se os mesmos cuidados de não promover um efeito reverso, no qual se valoriza o negro em detrimento do branco, do pardo, do ruivo. Não somos diferentes, repito. Somos humanos, um igual ao outro, em toda nossa constituição. Rememoro os discursos de Nelson Mandela, que sofreu e lutou contra o regime do apartheid, na África do Sul, para marcar minha posição
 
Mandela, um dos maiores líderes que o mundo já viu, ao tratar da política dos povos afirmou: “Lutei contra a dominação branca e lutei contra a dominação negra. Porque eu promovi o ideal de uma sociedade democrática e livre, na qual todas as pessoas possam viver em harmonia e com oportunidades iguais. É um ideal que espero viver mas, se necessário for, é um ideal para o qual estou preparado para morrer”.
 
No dizer de Mandela, nem consciência negra nem consciência branca, mas consciência sob todos os aspectos: a consciência verdadeiramente humana.
 
Ao receber o Prêmio Nobel da Paz, compartilhado com o presidente sul-africano F.W. de Klerk, em 1993, Nelson Mandela, em seu discurso afirmou para todos os que os assistiam: “O valor da nossa recompensa compartilhada deve ser medida e a paz triunfará. Porque a humanidade que une negros e brancos em uma só raça dirá a cada um de nós que devemos viver como filhos do paraíso”.
 
Mandela continua: “Mas ainda há gente em nosso país que erroneamente acredita que se contribui para a Justiça e à paz aderindo a esses dogmas que só trouxeram desastre.
Esperamos que eles possam ser abençoados com o raciocínio, o suficiente para perceber que a história não pode ser negada e que uma nova sociedade não pode ser criada a partir da reprodução de um passado desagradável, por mais que se tente disfarçá-lo ou reconstruí-lo”.
 
A história a que Mandela se refere é a da humanidade, a minha, a sua. É o legado de todas as cores, porque todas são uma só: a raça humana. Quem foi o primeiro a insinuar que temos distinções? Pois este estava coberto de enganos. Sobretudo, nas relações sociais, deve prevalecer o respeito e os direitos a oportunidades iguais, tal como diz a Declaração Universal dos Direitos Humanos e, de forma particular no Brasil, a nossa Carta Constitucional.
 
Essa construção da consciência universal, indubitavelmente, passa pela educação. Como melhorar os índices de escolaridade, qualificação e requalificação de todos? Penso que essa tarefa perpassa pelos entes federativos (União, Estados e Municípios), que devem criar mecanismos que fomentem escolas e universidades públicas de qualidade, em detrimento das facilidades para se abrir uma instituição de ensino privada.  
 
Isso remete, naturalmente, a melhores condições de trabalho para os professores e servidores desse setor, contemplando ações de valorização pessoal e oferta de estrutura condizente com os objetivos educacionais, que por sua vez devem refletir os objetivos da nação que almeja o progresso.
 
É preciso mais que uma Lei de Diretrizes e Bases. A educação de qualidade requer atenção máxima, acompanhamento, desde os anos mais básicos até a educação especializada. Condições adequadas para as séries iniciais, onde se trabalha aspectos indispensáveis ao desenvolvimento cognitivo do aluno. A pluralidade educacional iniciada na fase ginasial, onde cultura e esporte são inseridos com mais veemência.
 
Um ensino médio que faça jus ao seu propósito de preparar para a vida acadêmica e profissional, aportando, por fim, em um ensino superior digno de capacitar nossos cérebros para os desafios mundiais que se agigantam. Vejam que durante toda essa trajetória educacional não há espaço para discernimento deste ou daquela em razão de sua cor.
 
E esse desafio é possível ser alcançado. A Coreia do Sul aniquilou o analfabetismo em quase meio século e desponta como um dos países mais desenvolvidos do mundo. A China tem em curso um dos maiores programas educacionais do planeta, cujos resultados já refletem em inúmeras melhorias e coloca o país como único capaz de ameaçar a hegemonia norte-americana.
 
Isso demonstra que os caminhos não precisam necessariamente ser iguais para todos, pois cada qual carrega uma história que lhe é particular. Mas as oportunidades sim, estas devem alcançar todos – em todos os rincões de nosso Brasil –, levando as condições necessárias à promoção social da nação.
 
Igualdade para todos, de todas as cores, raças, crenças e religiões. O mundo precisa de mais amor e este começa com o respeito. Que as pessoas possam ser amadas, reconhecidas e valorizadas pelo conjunto de valores que carregam consigo e que prevaleça o respeito a uma só raça: a humana.

 

Osmar Gomes dos Santos
Juiz de Direito da Comarca da Ilha de São Luís. Membro das Academias Ludovicense de Letras; Maranhense de Letras Jurídicas e Matinhense de Ciências, Artes e Letras.


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