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3- Crônica


Ser mulher sempre foi um desafio em uma sociedade marcada pelo veio machista. Ao remontar a própria história da humanidade verifica-se que em poucas oportunidades tiveram posição de destaque.
 
Desde a antiguidade, os homens sempre estiveram à frente das tribos, das casas, da caça. A mim, mulher, ficavam, além da função de procriar, os afazeres subalternos e os cuidados da casa e da prole.
 
Ganhei rótulo de sexo frágil e posição secundária na sociedade. Fui impedida de participar das decisões da tribo, do bairro, da cidade, da nação. Na história moderna, enfrentei décadas de preconceitos para ter direito ao voto. Um avanço, mesmo que ainda necessitasse da autorização do marido.
 
Continuei. Cerrei punhos e segui na luta por espaços que representam igualdade, nada mais justo. Entendi, desde sempre, que o direito deve ser pleno, pois as garantias não se fazem com migalhas normativas.
 
Não quero o acesso pela metade, não quero a liberdade com restrições, não aceito acessar espaços onde não tenho acento. Sou mulher, quero meu lugar. Não quero o dele, bom que se diga.
 
Não pretende, oportunamente, impor uma ditadura feminina, ou feminista, não! Não quero ascender para subjugar o homem, não! Somos um único ser, conectados, feitos imagem e semelhança, cada um no seu quadrado e o quadrado sendo de todos.
 
Almejo apenas a posição de igualdade. Condições análogas de acesso a direitos: estudo, trabalho, colocação, salário. Que a minha condição genética não seja um fardo a ser carregado para o resto da vida, como se o fato de ser mulher me condenasse a uma condição subalterna eternamente.
 
Quando falo de espaços, falo de oportunidades iguais, do olhar sem preconceito, do ser ouvida e ser respeitada. Poder exercer a liberdade de ir e vir, de expressão, de escolhas. Tenho direito a ter direitos, dentre eles, o de fazer minhas escolhas.
 
Quero casar com quem escolher e que com o matrimônio, venha a mim uma certidão de casamento e não um certificado de propriedade. Se a vida der suas voltas, quero ter a liberdade de separar, assim como aceito da outra parte a separação. A vida segue sempre em frente, cheia de boas surpresas em cada esquina.
 
Sou livre! Para ser feliz, sair com amigas, fazer minhas unhas e cabelos, cuidar de mim. Vou para academia, corro no calçadão, cuido da saúde, da beleza e da autoestima. Livre para tudo aquilo que me traz um sorriso sincero estampado no rosto.
 
Sou dona do meu corpo, das minhas próprias vontades, das minhas escolhas. Não preciso de dono, muito menos rédeas. Livre, mesmo que comprometida, qual o problema? Afinal, uma coisa não impede outra, nem remete a qualquer conduta devaneia que se traduza em quebras das promessas feitas no altar. Afinal, não podem os homens irem ao barzinho com amigos assistir ao jogo do time do coração?
 
Mas se em vez de homem eu gostar de mulher, ou não gostar de ninguém, sendo autossuficiente em mim? Ninguém tem nada a ver com isso. Quero ser eu, na minha singularidade, querendo um pouco mais de carinho, amor e compreensão para meus dias de tensão. Ah, e respeito. Desse não me furto de lutar.
 
Tenho voz ativa e posso estar em qualquer cadeira de comando ao mesmo tempo em que posso pilotar, construir, tornear. Sexo frágil é história que nos quiseram fazer crer por muito tempo. Hoje estou na lida, no canteiro de obra e em todo canto que exista um trabalho a fazer com duas mãos.
 
Mas também quero ser mãe e poder fazer girar a fantástica roda da vida. Curtir os nove meses, amamentar, trocar as fraldas, embalar, cuidar, conduzir. Mãe de verdade, companheira e presente.
 
Quero tudo que puder sonhar, sem pretender mais ou menos espaço. Apenas o que me é devido, em pé de igualdade, sem tirar nem por.
 
Forte, viril, altiva, independente, autônoma. Sigo no direito de lutar, para que um dia, outras gerações não precisem lutar para ter direitos. 

Sou preta, branca, parda, gorda, baixa, magra, alta. Sou mulher na minha singularidade, sou humana na pluralidade, em direitos e igualdades. Por falar em data dedicada a mim, cerro punho e brado alto: não quero um dia para ser lembrada, mas ser lembrada todos os dias.

 

Osmar Gomes dos Santos, Juiz de Direito da Comarca da Iha de São Luís. Membro das Academias Ludovicense de Letras; Maranhense de Letras Jurídicas e Matinhense de Ciências, Artes e Letras