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SEGUINDO A VIDA COM LÁPIS E PAPEL

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      Ofício de tamanha importância em uma sociedade, deixa-se exercer da forma mais democrática nas mais diversas camadas sociais e faixas etárias. Provavelmente a atividade mais exercida pela humanidade desde seus primórdios, haja vista infinita quantidade de documentos que atravessaram eras até nossos dias.
 
Apesar dessa liberdade, alguns possuem mais habilidade que outros. E assim, pelas mãos do escritor os fatos são registrados, as memórias são montadas, a história é construída. Ser escritor não está acima nem abaixo das diferenças que insistem em nos separar, está para além disso, na essência daquilo que pode nos unir.
 
O escritor ousa sonhar acordado, dando asas a imaginação. Mas logo pousa com inigualável senso de racionalidade para transcrever em um pedaço de papel seus devaneios e desventuras, suas caminhadas no seu particular país das maravilhas.
 
Contrariamente, ousa fugir do real para um mundo idílico, onde suas ilusões ganham contorno a partir das suas experiências do real, aflorando toda singular subjetividade de um âmago nem sempre compreendido. Usa a escrita para “brincar” com as situações do cotidiano, como num eterno jogo de palavras dos acontecimentos.
 
O escritor é aquele que põe a cara a tapas, dos textos mais estapafúrdios aos mais singelos romances nos moldes shekespeariano. Mostra-se límpido, outras vezes obscuro; doce, por vezes amargo, azedo e até insípido; sucinto e simples, ou mesmo redundante e rebuscado. Seja como for, ele imprime sua marca.
 
Em alguns momentos é opinativo, propõe-se a um analista social e discorre sobre, emitindo críticas e conclusões ou apenas expondo fatos àquele que se apropriará conforme seu arcabouço cultural.  a verdade é que por trás de cada texto, do mais breve artigo ao mais extenso livro, existe aquele que ousou tecer alguns rabiscos.
 
O saudoso Euclides da Cunha, no consagrado Os Sertões, afirmou que “O sertanejo é, antes de tudo, um forte”. Em tempos de tecnologia digital, parafraseio o mesmo trecho dessa epopeia brasileira, para afirmar que “O escritor é, antes de tudo, um forte e um persistente”.  
 
A persistência se dá devido a permanente necessidade de concorrer com um mundo cada vez mais tecnológico, que apresenta um sem número de atividades de entretenimento, relegando a leitura a um segundo plano. Um estudo recente revela que o brasileiro gasta mais de nove horas por dia navegando nas redes sociais, enquanto outro revela que passa menos de dez minutos lendo um livro.
 
Esse abismo reflete, também, um crônico problema educacional cujos desafios precisam ser enfrentados. Na escola ou em casa, é preciso encarar a leitura como parte essencial na formação do caráter dos jovens.
 
Os desafios são inúmeros para quem se arrisca por um mar de incertezas. Especialmente no Brasil, raramente se consegue viver do ofício abrindo mão de outras fontes de recursos. Assim, o escritor exerce dupla, ou até tripla jornada para manter viva esta paixão na esperança de que seus escritos alcancem um lugar ao sol.
 
Mesmo diante das dificuldades, o escritor se lança em sua árdua rotina. Com uma perspicaz teimosia que lhe é peculiar inicia, ou mesmo termina , o dia junto a um lápis e um pedaço de papel sobre o que insiste em imprimir contornos à realidade sob seu aguçado e inquieto olhar.
 
Seja por profissão, por amor ou por pura insistência, a arte de escrever histórias jamais deve ser abandonada. Ao cabo de tudo, alguns escritores simplesmente se vão, nos deixam inesperadamente sem o devido reconhecimento. No entanto, por mais modesto que seja, jamais se esvai sem deixar impregnado o seu legado, a sua marca, ainda que para um seleto grupo de admiradores.
 
Se lápis e papel já não servem a alguns, cabe a outros dar continuidade ao ofício. Se “o mais belo triunfo do escritor é fazer pensar aqueles que podem pensar”, como afirmava o pintor francês Eugene Delacroix, sigamos nossa sina, bravos escritores, com erros e acertos, como dizia Rui Barbosa, rumo a uma sociedade cada vez mais capaz de pensar e agir sobre sua realidade.

 

 

Osmar Gomes dos Santos, Juiz de Direito da Comarca da Iha de São Luís. Membro das Academias Ludovicense de Letras; Maranhense de Letras Jurídicas e Matinhense de Ciências, Artes e Letras.


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