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REGRESSO

Nestes dias de clausura, assoberbado das paredes do apartamento, cansado da repetida rotina, apesar do trabalho remoto e da companhia familiar, confesso ter atingido uma espécie de estafa mental diante de um quadro que aprisionou a todos nós. Alternativa não podia ser outra a não ser dar liberdade incondicional ao pensamento.
 
Deixei-me transportar, com passagem apenas de ida, aos tempos pueris, tocados por uma inocência quase irresponsável, ainda sem grandes sonhos e comprometida com as preocupações de cada dia. A introspecção levou-me de volta, embalado em notas de doce nostalgia, às aventuras e desventuras de uma infância marcada por travessuras.
 
Regressei ao campo, às noites de luar a iluminar o límpido céu estrelado de verão ou mesmo às noites cinzentas que frio trazia àquela pequena construção de taipa que escorava a frágil cobertura de palhas.
 
Fiz-me sentir os pés tocar naquele gélido chão de barro batido, cujas imperfeições suportavam os poucos e velhos móveis, que por sua vez ofereciam o mínimo de conforto e serviam para organizar os poucos bens materiais.
 
No canto da cozinha, a chama do fogão a lenha trazia um duplo contentamento: primeiro era de aquecer nas noites frias; o segundo é que a panela sobre ele evidenciava o banquete que reuniria, dentro de instantes, a família em torno da mesa. A ceia em família era uma tradição.
 
A vida no campo é algo indescritível. Os aprendizados e experiências acumulados nos marcam para a eternidade. Os tempos difíceis, de escassez de bens e alimentos, costumam fazer contraponto ao da fartura proporcionada pela natureza em seu perfeito equilíbrio.
 
No período de estiagem, costumávamos esticar a noite um pouco mais, algumas vezes teimando em romper o limite de horário de ir para a rede feita de pano, visto que aos primeiros raios de sol a labuta diária tornaria a ocupar corpo e mente em mais um dia de trabalho.
 
Um rito fascinante se sucedia. Aos pequeninos, meu caso, cabiam as tarefas de apoio – dar comida às poucas crias, carregar o cofo, levar ferramentas e auxiliar em atividades mais simples, como buscar água ou a boia para alimentar os mais velhos. Tudo feito com muita alegria, muitas vezes como se fosse uma inocente brincadeira.
 
A execução das atividades ditas mais complexas – roçado, capina, construção, caça, pesca, plantio e colheita – ficavam reservadas àqueles com mais idade e experiência. As trocas da produção da roça por outros insumos eram feitas pela matriarca da família, minha mãe, aos moldes tradicionais.
 
E assim segue, até hoje, a vida no campo, com suas manhas e artimanhas para driblar os momentos mais difíceis. Não raro ver famílias, no período da bonança agrícola, fazerem provisões para épocas mais difíceis. A caça e a pesca, apesar de darem bons resultados, de certo tem apenas a incerteza.
 
Mas tem o lado bom e este supera toda e qualquer dificuldade trazida pelas incertezas campesinas. Em meus devaneios, viajo pela beleza dos campos, sentindo seu ar puro, tocando com os olhos as verdejantes matas que o circundam, testemunhando os rios que matam a sede com águas das enormes bacias campestres, formando a mais bela e bucólica paisagem.
 
O cair da noite revelava a beleza peculiar em meio à escuridão. Do quintal, avistava o campo sob o céu de estrelas, que de tão próximas se revelavam inalcançáveis. Lá ficávamos, deitados, a contemplar o espetáculo que vinha do alto, até uma estrela cadente rasgar o silêncio daquele céu cintilante.
 
A alma gritava um ingênuo e abafado pedido, que não podia ser ouvido sequer pelos olhos latejantes de alegria. Talvez um dia se realize. Pelo sim, pelo não, melhor expressar, quase sussurrando, o desejo que se quer.
 
Um feixe de lenha jogado ao canto da casa se transforma rapidamente em uma fogueira. Restos de galhos, folhas e algumas palhas dão intensidade às chamas. Era hora da brincadeira em volta do fogaréu que, visto ao longe, rapidamente reunia colegas de toda parte do povoado.
 
Como tudo que é pujante na vida, as chamas reduziam gradativamente. Restava um punhado de insistente brasa, viva. Além de manter aquecido diante do sereno que cai, era o momento de assar uma batata doce, um milho ou a saborosa tarifa seca- a nossa jabiraca.
 
Vamos nos recolher. A brasa que se esvai é um indicativo de que é chegada a hora de se recolher. E se vai mais uma bela noite no campo, ficando as muitas lembranças, na alma ardente. Memórias que, em um jogo de passado e presente, são revisitadas no permanente regresso ao profundo campo de emoções e mistérios que levamos para posteridade.

 

Osmar Gomes dos Santos, Juiz de Direito da Comarca da Iha de São Luís. Membro das Academias Ludovicense de Letras; Maranhense de Letras Jurídicas e Matinhense de Ciências, Artes e Letras


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