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A CONDESSA VÉSPER

 Um pouco de literatura em meio à pandemia
 
Decerto que o mundo passa por um momento delicado. Consequentemente o Brasil e o Maranhão também enfrentam a crise trazida pelo novo coronavírus. Medidas extremas de isolamento estão sendo tomadas de norte a sul e a população está buscando se resguardar, evitando o contato social. Mas nada de ócio, estamos presos apenas no plano físico, devendo libertar a mente ao exercício criativo.
 
Por oportunidade da passagem do último dia 14, data de nascimento de Aluísio Azevedo, revisitei alguns escritos sobre o autor. Preferi fugir dos livros de maior expressão e que lhe deram notoriedade, até pelo fato de já ter abordado sobre as mesmas. Prendi-me à obra “A Condessa Vésper”, tão significativa quanto às outras para o conjunto bibliográfico de Azevedo.
 
Mais uma obra do final do século XIX, A Condessa Vésper é resultado de uma série de contos publicados em A Gazetinha, folhetim contemporâneo de propriedade de Artur Azevedo, irmão de Aluísio.  Para se transformar em livro, sofreu profundas mudanças e adequações.
 
A narrativa envolve e prende o leitor desde as primeiras linhas. Em meio à riqueza de detalhes – seja do aspecto físico, social e psicológico dos personagens – o tempo passa acontecimentos se sucedem em meio à narrativa. As tragédias da vida privada, que se revelam no social, bem aos moldes do escritor, dão um desfecho coerente com a proposta da obra.
 
Com um enredo girando em torno de uma mulher como personagem principal, traz ao leitor toda acidez na crítica social que marcou suas obras da escola literária. O drama revela uma figura feminina com características homossexuais, transfigurada aos padrões da época, e consequentemente amaldiçoada por suas escolhas.
 
Se por um lado a homossexualidade masculina já tinha sido a abordada em outras, embora sutilmente, o mesmo ainda não havia ocorrido com a mulher. Acredita-se que, na literatura brasileira, essa exposição da mulher com opção pelo mesmo sexo em detrimento da virilidade masculina tenha sido inaugurada por Azevedo.
 
Além da notável preferência pelo sexo oposto, Ambrosina revela-se uma mulher com poucos pudores, a não ser a costumeira aparência para a sociedade. A encarnação da maldade ficava notória nas passagens sobre adultério, furto, ganância, mentiras e sedução por conveniência. Um manipulado jogo, bem ao gosto de Aluísio.
 
O enredo tem suas reviravoltas, marcadas por sucessões de tragédias que prendem o leitor, algo bem característico atualmente nas telenovelas. Ambrosina torna-se amante de Gabriel após uma noite de núpcias frustradas em que seu marido, Leonardo, enlouquece.
 
Passa a viver uma relação às escondidas com Gabriel, mas não tarda a trair este também e a viver aventuras paralelas. Depois de envolver Gabriel em um jogo amoroso, foge com Laura, por quem revela ter um sentimento ardente nunca antes sentido.
 
 “Foi o meu único amor. Jamais em delírio de sentido, paixão, esquecimento de tudo, a alma e carne se fundiram numa só lava de desejo insaciável e ardente…”.
 
Noutro trecho, revela todo “canibalismo” sexual que a possuíra, juntamente com Laura. “E para nós outras abriu-se uma estranha vida de delícias transcendentais e cruéis. Primaveramos em Nice e fomos de verão a Paris. O velho mundo, sistematicamente orgíaco, nos era indiferente e banal. Vivíamos uma para a outra”.
 
Sem dúvidas essa relação entre as personagens é o ponto alto da trama literária de Azevedo, posto que as demais críticas, costumeiramente, já eram vistas em seus escritos.
 
Regressando da Europa, após a morte de Laura, entranha-se com D. Felipe, que a faz condessa. Mas não tarda estar novamente só, oportunidade que se encosta novamente em Gabriel, com quem passa a ter uma relação por conveniência, conturbada, devido às desmedidas ambições de Ambrosina, e fatalmente trágica, dando desfecho esperado após tantas desventuras.
 
Desejosa por obter um par de broches que vira na loja Farani, impõe condição a Gabriel que só estaria em seus braços após comprar-lhe as joias. Gabriel raspa as migalhas de economia que ainda restavam, vai até a loja e adquire os adornos, pedindo, estranhamente, que o atendente separasse as gemas da base em ouro.
 
Seguiu para uma loja de armas e comprou duas pistolas de carregar pela boca. Pede que as deixasse carregadas, munindo-se de duas espoletas. Mais tarde, ao chegar em casa, apresenta à amada o estojo das joias, fazendo-a explodir de alegria. Mas impõe uma condição de que a mesma deixasse seu colo nu, passando-lhe uma venda nos olhos, que só poderia ser retirada frente ao espelho.
 
Gabriel, que cansado de tudo que passara ao lado da amada, toma nas mãos as duas pistolas já engatilhadas e carregadas cada uma com um brilhante. O estampido, o gemido, as gemas encravadas no seio da amada, a queda, o sangue, o cárcere, o suicídio.
 
A obra expõe exageros, cobiça e futilidades. Paradoxos entre vícios e virtudes, amor e ódio, dor e prazer, vida e morte. A opção sexual parece trazer a Ambrosina uma sentença de morte, maldição que se propagava àqueles com quem ela teve contato. Assim como Laura, outros personagens tiverem suas vidas ceifadas.  
 
Por outra via de análise, pode ser vista como crítica ao modelo patriarcal, no qual prevalecia a vontade masculina. O protagonismo, devaneios e peraltices, embora algumas passem dos limites, talvez tenha buscado refletir a emancipação da alma feminina em sua plenitude, desejos e ações.

 

Osmar Gomes dos Santos, Juiz de Direito da Comarca da Iha de São Luís. Membro das Academias Ludovicense de Letras; Maranhense de Letras Jurídicas e Matinhense de Ciências, Artes e Letras


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