Por Osmar Gomes dos Santos
Deixei meu lado pessimista falar mais alto esta semana. Sem pretender ser demagogo, posar de exemplo ou colocar-me como arauto da moral.
Todavia, analisando alguns casos recentes, coloquei-me a refletir sobre nossa sociabilidade, o que realmente queremos e para onde caminhamos enquanto sociedade.
Em uma rápida saída na véspera e, também, no último Dia das Mães, pude testemunhar um festival de atitudes que denotam bem a máxima individualista. A mais pura tradução da expressão “farinha pouca, meu pirão primeiro” ou “puxar a brasa para minha sardinha”.
Pessoas jovens estacionando em vagas de idosos e gestantes; outras (muitas outras) guardando lugar nas filas do mercado, enquanto marido, filho ou mãe faziam as compras e, repentinamente, chegavam com a cesta ou carrinho cheios.
Atitudes aparentemente banais e inofensivas, mas que se traduzem na manifestação sórdida do jeitinho brasileiro, revelando o egoísmo que nos atrasa enquanto nação. Falta de ética, princípios e moral que se refletem em todas as formas de corrupção.
A parada na vaga reservada é sempre “rapidinho”. A vaga está vazia e cinco minutinhos não vão atrapalhar “ninguém”. E é exatamente como um “ninguém” que a pessoa que precisa daquela vaga se sente ao chegar e constatar a ocupação por quem não tem esse direito.
“Não sou besta! Por que estacionar longe, quando é mais conveniente colocar o carro naquela vaga azul?”
“Por que vou perder tempo em uma fila de mercado se posso levar alguém que guardará o lugar para mim, enquanto escolho tranquilamente meus produtos?”
Ainda no exemplo do mercado, para uma mesma compra, ocupam-se até mais de uma fila. Fico em uma, a esposa em outra e o filho em uma terceira. A que andar mais rápido será aquela para a qual todos convergirão.
Minha pressa,e falta de educação e empatia, não me permite enxergar o entorno quando estou ao volante. Não uso seta, tomo o espaço do outro na marra e sequer percebo aquele pedestre que perde tempo tentando atravessar uma faixa. Minha pressa não dá margem para obedecer às leis de trânsito.
Assim vamos seguindo, deixando de nos importar com o tempo do outro, com a dor do outro. Estamos focados apenas em nosso próprio umbigo, numa tradução literal do egocentrismo que sinaliza a derrocada social.
E ainda abrimos a boca para falar de “evolução”, como se estivéssemos progredindo em uma escola evolutiva que tende a nos tornar melhores a cada geração. Dupla ilusão: a da evolução e a de que estamos melhorando.
Onde perdemos o bom senso? Quando pensamos egoisticamente, agimos da mesma forma, sem nos importar com o mundo ao nosso redor. As relações se fragilizam, os valores se perdem.
Afinal, ninguém quer ser o “bobo”, o “otário” da vez. Ceder traz a sensação de perda. Então, não ficar para trás e levar vantagem a qualquer custo sobre o outro virou sinônimo de esperteza.
Nosso tempo, nosso compromisso, nosso mundo e tudo o que orbita ao nosso redor passam a ser mais importantes que os do outro.
Na relação selvagem da disputa por espaço e posição privilegiada, a primeira vítima é a empatia. Perdem-se, na sequência, a generosidade, a consideração e o amor ao próximo.
O respeito passa ao largo, e os meus cinco minutos importam mais do que as regras socialmente estabelecidas.
Por falar em tempo, pensando cá com meus botões, já perdi tempo até demais neste breve rascunho. Talvez eu pudesse simplesmente estar gastando meu tempo com algo mais útil para mim mesmo.
Osmar Gomes dos Santos é Juiz de Direito na Comarca da Ilha de São Luís (MA) e presidente da Academia Ludovicense de Letras. É membro das Academias Ludovicense de Letras, Maranhense de Letras Jurídicas, da ALMA – Academia Literária do Maranhão e da AMCAL – Academia Matinhense de Ciências, Artes e Letras.






