Por Osmar Gomes dos Santos
Abril se foi; ainda assim, o mês pode ser celebrado, desde que se invoque a exaltação de um dos arquitetos mais audaciosos da literatura brasileira: Aluísio Azevedo.
Nascido em abril, em solo maranhense, ele não apenas narrou o Brasil de sua época; também o dissecou sob a luz crua e científica do Naturalismo, desvelando nuances que somente um olhar qualificado poderia alcançar.
Com sua visão disruptiva e de vanguarda, revelou as engrenagens que faziam funcionar uma sociedade em plena mutação. Um homem de múltiplos talentos e, por definição, atemporal.
Por isso, homenagear Aluísio não guarda relação direta com datas específicas. Ao longo de todo o ano, é tempo de falar de um dos pilares da nossa literatura. Tal reconhecimento exige ir além da superficialidade das efemérides.
Ao aprofundar-se em sua escrita-laboratório, que tomava o ser humano como objeto de análise sem reduzi-lo a uma objetificação simplista, percebe-se como o homem é retratado como produto do meio, fruto de uma hereditariedade entrelaçada ao momento histórico.
O escritor buscava o âmago das desventuras mundanas, refletidas nas relações sociais, em contraposição ao romance que, por vezes, emoldurava cenas eufemizadas e, em outras ocasiões, escancarava o sofrimento, sobretudo feminino, diante das desilusões amorosas, frequentemente sem explicitar suas causas.
A realidade nua e crua passou a ocupar espaço nas páginas dos folhetins, transformou-se em livros e eternizou a corrente literária naturalista, a qual emergia com a pujança e a audácia de seu maior expoente.
Com Aluísio, casarões com mirantes e janelões, deram lugar às palafitas do cortiço, retratadas em toda a sua marginalidade.
Os cenários não eram meros panos de fundo; ao contrário, constituíam verdadeiros espaços-personagens, que ganhavam vida e notoriedade, delineados de forma a influenciar diretamente a narrativa, captada por seu olhar clínico.
Barracos, pontes de madeira, comércios e outros espaços compunham a cena e se entrelaçavam aos comportamentos, assumindo proporções que, não raro, se sobressaíam às próprias narrativas.
Características que pulsavam e faziam pulsar os personagens de cada trama, envolvendo o leitor com riqueza de detalhes singulares.
Um retrato que contrastava com o véu do decoro, o qual escondia as feridas abertas de uma nação ainda em busca de sua própria identidade.
Escancarou o preconceito racial e social, a exploração do homem pelo homem, bem como os comportamentos que cediam aos instintos mais primitivos, em confronto com a ética e a moral.
Não se pode deixar de acrescentar uma nota de saudosismo ao reconhecer que toda essa pujança literária tem berço ludovicense.
A chamada Atenas Brasileira contribuiu para a formação do pensamento de Aluísio, oferecendo as bases e o rigor intelectual que lhe permitiram, posteriormente, traçar as silhuetas da sociedade brasileira, representada na então capital política e intelectual do país, o Rio de Janeiro.
Aluísio rompeu com o ideal do belo, deu voz ao feio, ao sujo e ao marginalizado. Longe de ser uma invenção ilusória, tratava-se de representação fiel da sociedade tal como se apresentava, um retrato de homens e mulheres imperfeitos, frágeis e marcados por vícios.
Nunca é tarde, portanto, para homenagear o literato que traduz o Brasil, aquele que fez da escrita um espelho para uma sociedade que precisava se enxergar para além de suas crenças e preconceitos.
Osmar Gomes dos Santos é juiz de Direito na Comarca da Ilha de São Luís, no Maranhão, e presidente da Academia Ludovicense de Letras. É membro das Academias Ludovicense de Letras, Maranhense de Letras Jurídicas, da ALMA, Academia Literária do Maranhão, e da AMCAL, Academia Matinhense de Ciências, Artes e Letras.






