*Por Osmar Gomes dos Santos
Se o mundo foi criado em seis dias, como dizem as Sagradas Escrituras, há quem jure, do lado de cá do Rio Preguiças, que Deus reservou o sétimo para descansar em Barreirinhas, no Maranhão.
Debruçado sobre os Lençóis, a deleitar-se com a criação, deixou a areia escorrer por entre os dedos. Criou-se, assim, um imenso deserto que, por pura teimosia, capricho e amor divino, decidiu virar mar, lagoa, paraíso.
E quisera Deus que Barreirinhas fosse o portal de toda essa beleza. Ao chegar à cidade, a sensação é a de cruzar uma fronteira invisível, abandonando a velocidade do relógio e adentrando um tempo que se mede pelo vento.
Lugar em que se misturam idiomas e sotaques dos quatro cantos do Brasil e do mundo. O francês se completa com o sotaque sulista; o italiano se rende ao calor arretado do Nordeste.
A pressa e a correria ficam ao longe. Ou melhor, a pressa se resume à contagem dos passos em direção à rede mais próxima e ao deleite de uma típica comida maranhense.
Ah, Preguiças… O rio que cruza a cidade não poderia ter outro nome. Suas águas mansas não correm, desfilam pelas reentrâncias da geografia, atravessando a cidade, matas ciliares, manguezais e dunas, até serem recebidas pelo imenso mar.
Pelo rio ou pelas trilhas, os passeios não são vistos como compromissos de uma agenda turística protocolar. O deslocamento até o destino é, por si só, uma experiência que merece ser vivida.
Um rito obrigatório que prepara o espírito para uma imersão mais profunda nas belezas de um paraíso quase intocado, que se revela após a próxima curva, a próxima duna.
Por falar em dunas, a subida não é tarefa fácil, especialmente na primeira vez. Cada passada é um exercício de fé. As pernas pesam, o vento batiza a pele com os grãos de areia. Entretanto, ao conquistar o topo, vem a recompensa.
Os Lençóis Maranhenses têm dessas belezas que não se explicam por inteiro. Por mais que as fotografias encantem e os relatos despertem curiosidade, nada se compara à experiência de estar diante daquela imensidão de areia e água, moldada pacientemente pelo vento e pela chuva. Há algo de sagrado e silencioso naquele cenário, como se a natureza tivesse escolhido esse pedaço do Maranhão para lembrar ao homem que a simplicidade também pode ser grandiosa. Talvez por isso quem chega aos Lençóis nunca saia exatamente da mesma forma; leva consigo a memória de uma paisagem que permanece viva nos olhos e no coração.
O paraíso prometido está logo ali, a poucos passos de distância, quando o horizonte alivia o peso das pernas e a pele já não sente a areia soprando com o vento incessante.
Difícil é equilibrar o misto de sensações e desejos. O verde-esmeralda e o azul-turquesa das lagoas chamam para um batismo, enquanto o horizonte magnetiza e convida à contemplação.
Tudo é natural. Imagens de uma beleza que nenhum filtro consegue reproduzir ou superar. Ali, percebe-se por que esse lugar é universal e, ao mesmo tempo, profundamente nosso.
Diante de tanto mistério, é impossível compreender como a água da chuva brota em meio aos labirintos de areia. Magnitude que revela o quanto somos pequenos e silenciosos, mas profundamente felizes por desfrutar do imponderável.
Quando o sol insiste em se recolher, o espetáculo continua. O astro-rei emoldura os Lençóis com uma aura dourada, formando uma paisagem única. A escuridão da noite revela outras belezas, agora com constelações vibrantes que cintilam no céu.
Os pincéis do vento seguem soprando no horizonte livre, brincando com a areia e desenhando novas formas de uma arte viva, que se apresenta diferente a cada amanhecer.
*Osmar Gomes dos Santos é Juiz de Direito na Comarca da Ilha de São Luís (MA) e presidente da Academia Ludovicense de Letras. É membro da Academia Ludovicense de Letras, da Academia Maranhense de Letras Jurídicas, da Academia Literária do Maranhão e da Academia Matinhense de Ciências, Artes e Letras.






