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SEMANA DA CULTURA NORDESTINA

“O sertanejo é antes de tudo um forte”. Salvaguardando todas as interpretações que possam ter a célebre frase cunhada por Euclides da Cunha naquele contexto, tomo-a de empréstimo para homenagear o povo nordestino nesta semana em que se comemora a sua cultura. Da Bahia ao Maranhão, um pedaço do mundo que guarda belezas naturais e a grandeza peculiar de um povo, misto dos negros, brancos e índios.

Nordeste, berço da nação verde e amarela, dono das mais belas manifestações culturais, que eclode na veia de seu povo em forma de folclore, culinária, danças, misticismo, crenças e lendas. Causos regados de uma religiosidade sem igual, tudo conforme a ideia do sobrenatural, baseados em acontecimentos reais, ou permeando apenas o imaginário popular.

Religião que debanda da Escadaria do Bonfim até chegar na Capela de São Pedro. Que está na base da fé sertaneja, que levanta as mãos ao céu no socorro do Padre Cícero, ou “Padim Padi Ciço”, no linguajar do cabra da peste arretado. Nordeste do Frei Damião, do Padre Ibiapina, dos Santos Mártires de Cunhaú e Uruaçu, no Rio Grande do Norte. Com tanta fé e proteção, não há que se temer a morte.

Abram espaço que o terreiro vai ferver. É nordeste de todos os santos, é candomblé, mina e terecô. Orixás, voduns ou caboclos, entidades místicas a possuir pais e filhos de santos, pode se achegar pra ver. Aqui é Nordeste, onde todos se ajeitam, sem nenhuma treta e sem nenhum caô.

São Marçal faz a alegria dos matraqueiros. É fé, é amor, é religião. Festa que toma conta da avenida, atravessa “sol a pino”, tal qual a Festa do Divino, em ritual que só acontece em São Luís do Maranhão.

É tempo de celebrar toda essa riqueza. É noite de sarau. Dançar tambor de crioula, maracatu, maculelê, axé, coco e xaxado. Levantar a poeira no samba de roda, baião, xote, forró, se contorcendo no frevo até dar nó. Ver o momento ganhar vida no repente da viola, sonorizar nos versos do cordel e deleitar o martelo agalopado.

Tudo regado a farta e boa culinária nordestina. Saborear o vatapá, acarajé, o bode no leite de coco, o arroz de carneiro ou o arroz de cuxá. Carne de sol, macaxeira, sururu, cuscuz, queijo coalho e munguzá. Nossa alegria é ver a mesa transbordando daquilo que a terra ou o mar, tão benevolentes, tem para nos dar.

Que tal um docinho para digestão? Aqui tem pra todo gosto e tudo é danado de “bão”. Bolo de rolo, de pote e de macaxeira. Tem nego bom, cocada e cartola, até doce de pequi. Ritmo, bebida, comidas, sons e sabores, coisas que só se veem  por aqui.

As belezas naturais são atração à parte. Das serras da caatinga às falésias a beira-mar, de um lado beija a Amazônia, do outro a Mata Atlântica, em um bioma em transição, cheio de vida, que dá gosto só de olhar. Um litoral perfeito, num mosaico de cores que cria um cenário tão belo e singelo que dá pena de tocar.

Na literatura, nem há o que se falar. Folhetim, romance, cordel, realismo e todos os ismos que impregnaram de tinta um bom punhado de papel. O Nordeste é expoente, dos tempos áureos do Brasil, reconhecidos além-mar.

João Cabral de Melo Neto, Jorge Amado, Tobias Barreto, Augusto dos Anjos, Nelson Rodrigues, Rachel de Queiroz, Aluísio e Artur de Azevedo, Graciliano Ramos e Ferreira Gullar. Não se pode esquecer de Gregório de Matos, Nísia Floresta, Da Silva e Costa, Castro Alves e Manuel Bandeira. São tantos, mas é imperativo citar o mestre José de Alencar.

Aqui é nordeste, nada se perde, tudo se transforma. O artesanato é único, embora feito de mil pedaços e marcados por milhares de traços. De ponta a ponta, é fonte de renda, sinônimo de vida; com mil e uma facetas, alegra quem é agraciado, e coloca na mesa do nordestino a comida.

Fibras, palhas, madeira, barro, areia, lixo, couro. Como num toque de midas, onde o artesão coloca a mão se transforma em ouro. São milhares de produtos, marcados por suas belezas peculiares. Que não importe em qual ambiente esteja, faz respirar outros ares.

Alagoas, Bahia, Maranhão, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte, Sergipe e Ceará. Esse é o meu Nordeste, de tanta coisa boa, de tanta riqueza, que não cabe em poucas linhas que aqui ousei em rabiscar.

 

Osmar Gomes dos Santos, Juiz de Direito da Comarca da Iha de São Luís. Membro das Academias Ludovicense de Letras; Maranhense de Letras Jurídicas e Matinhense de Ciências, Artes e Letras


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