Por Osmar Gomes dos Santos
Mas o que mesmo é a saudade? Como expressar o significado de uma palavra que somente existe no vocabulário brasileiro com tamanha intensidade?
A despeito dessa questão, certo é que “saudade” é uma das palavras mais profundas que conhecemos. Tamanha complexidade carrega sentimentos que não cabem facilmente em definições simples.
Rememorar não é apenas lembrar de alguém de quem se sente falta. Saudade é um estado emocional ligado a algo ou alguém cujas marcas ficaram impressas em nossa existência.
Há quem diga que a saudade dói, porém ela também revela amor. É algo que, de alguma maneira, nos conforta, trazendo para perto, ainda que em pensamento, uma sensação da presença de quem ou do que nos faz falta.
Como sentimento nobre, não está ao alcance de qualquer um. Ela só existe para quem ousou viver intensamente e cultivar relações com pessoas por quem realmente vale a pena se importar.
Daí porque tal palavra ganha contornos ainda mais profundos quando está ligada à perda de alguém amado. A saudade de quem partiu é diferente de qualquer outra.
Isso porque não há expectativa de reencontro, pelo menos não neste plano concreto. O que resta são lembranças carregadas de significado afetivo, que se traduzem em saudade.
A saudade fala do que permanece em nosso âmago, ainda que tudo lá fora mude. Ela resiste e atravessa o tempo e o espaço, superando o esquecimento por meio de sua permanência afetiva na memória.
O sentimento pulsa, balança e grita, como se vozes continuassem ecoando dentro da memória e do coração. Uma memória boa, pura, que passa a morar nos detalhes mais simples: uma música, um perfume, uma comida, um momento.
Ela acompanha as distâncias que a vida traz, rápidas ou duradouras. Amigos que se mudaram, familiares separados, amores interrompidos pelo tempo ou pelas circunstâncias. E lá está ela: a saudade.
Curiosamente, seu tamanho não se mede pela distância, mas pela intensidade, que retrata o quão profundamente algo ou alguém nos marcou.
Pode ser uma época. A saudade do tempo despreocupado da infância, quando só queríamos correr, brincar e fazer peraltices. Da liberdade quase irresponsável e dos superpoderes da adolescência. Quanta saudade!
Pode manifestar-se em um misto de dor e doçura. Contudo, de alguma maneira, sentir saudade é uma forma de manter vivos os vínculos que o tempo tentou afastar.
No fim, a saudade configura uma prova latente das essências mais nobres do que é ser humano e revela que há pessoas que passam por nossas vidas e deixam vestígios.
Perto ou longe, neste ou noutro plano, a saudade não se explica; apenas se sente, como um amor puro que encontrou uma maneira de continuar a existir.
Osmar Gomes dos Santos é Juiz de Direito na Comarca da Ilha de São Luís (MA) e Presidente da Academia Ludovicense de Letras. É membro da Academia Ludovicense de Letras, da Academia Maranhense de Letras Jurídicas, da Academia Literária do Maranhão e da Academia Matinhense de Ciências, Artes e Letras.






