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UMA LÁGRIMA QUE NÃO SECA

Quantas ainda serão as mulheres que ainda precisarão perder a sua liberdade, o seu sorriso, a sua autoestima, a sua vida, para que nós, homens, continuemos a viver sob o pedestal da arrogância machista e patriarcal?
 
A pergunta acima não tem arrodeio, é direta! Daquelas que bate no âmago até mesmo daqueles que julgam nada ter de machismo. E a intenção é mesmo essa: inquietar, incomodar. Fazer até mesmo aquele que crê nada ter de machista se questionar sobre seus atos, ou mesmo sobre suas omissões para casos de violência, seja ela qualquer tipo, contra as mulheres.
 
Não quero aqui trazer números, não me debruçarei um olhar analítico da violência contra a mulher, mas uma reflexão de comportamento.
 
Rememoro no título deste artigo o primeiro romance do imortal Aluísio Azevedo. “Uma lágrima de mulher”, tal como tantas outras obras do autor, traz a maestria de quem conseguiu enxergar “de fora” uma sociedade que por dentro era corroída por valores e costumes ortodoxos de uma sociedade cheia de vícios de conduta.
 
Na narrativa, Rosalina sofre com os dissabores de não poder escolher seus próprios caminhos, seus instintos. Impossibilitada de viver sua paixão, devido às escolhas feitas para ela, em detrimento daquilo que seu coração queria. A busca por um marido de posses ou títulos a leva rumo a um completo desconhecido, algo que por si só já representa uma violência contra  mulher.
 
Rosalina é transformada, renega aquele que deveria ter sido o de sua vida e o seu grande amor, em favor de um casamento arranjado, do luxo e do conforto. Transformara-se. Ou transformaram-na.
 
Na própria narrativa, Azevedo mostra como a mulher também era colocada na posição de interesseira, de buscar, nos matrimônios arranjados, uma vida de facilidades e de opulência, que derradeiramente vai culminar em um adultério, como visto noutros contos de autores da época.
 
A lágrima que correra na primeira metade do século XIX, cenário em que se passara a obra, são as mesmas que hoje correm os rostos aos quatros cantos do país. Daquele momento para o vivido hoje, algo como cerca de dois séculos, mas as mesmas similitudes de uma sociedade onde a mulher ainda não tem o seu devido lugar garantido.
 
Acima do homem? Questionam alguns. Vão passar à nossa frente? Murmuram outros. E assim a violência física, emocional, psicológica, financeira, contra a mulher se perpetua e atravessa gerações. Consolida-se como uma barreira ao desenvolvimento social e configura-se como algo aceitável em nossa sociedade.
 
Não. Nada disso pode ser concebido como normal. Tal como o homem e todo ser que se julga livre em uma sociedade democrática, o lugar de cada um é onde quiser. Isso vale para a mulher, obviamente.
 
Homem que é Homem, como alguns gostam de ressaltar o “H” maiúsculo como símbolo de virilidade tem que aprender que a mulher deve ser respeitada em suas igualdades e em suas diferenças com o sexo oposto. Ponto!
 
Não se pode mais admitir mulheres como meros objetos de posse de mentes doentias, como objetos para satisfação de desejos, como um pedaço de carne para descarregar as tensões hormonais.
 
Quantas lágrimas hão de correr? Quantos olhos precisarão de óculos escuros para esconder as marcas? Quantos cantos de boca ainda escorrerão sangue da violência praticada contra a mulher? Quantas almas ainda continuarão aprisionadas sem que possa conhecer o prazer da vida em liberdade?
 
Esses questionamentos faço-me todos os dias. Pergunto se minha conduta não tem ferido de morte aquelas que estão a volta: mãe, irmã, esposa, filha, sobrinhas, primas, amigas. Reflito, pondero minha conduta diária para não me embriagar nos vícios da vida, que tão logo nos fazem perder a noção do certo, do errado. Que nos passam a falsa sensação do “normal”.
 
Homens. Maridos, pais, irmãos, amigos, primos, Homens! Troquem as lágrimas dos rostos femininos pelos sorrisos, pelo brilho no olhar, pelo semblante de esperança no futuro. E não sejamos omissos, metamos a colher ao menor sinal de violência.  
 
Mulheres. Esposas, mães, irmãs, amigas, primas, Mulheres! Vocês são feitas de sonhos, de desejos, de alegria, de força, de fibra. Jardim no qual germina a semente e brota toda e qualquer vida humana. Você, mulher, não é feita de lágrimas, tal como a fictícia Rosalina. Você é e deve ser o que quiser.
 
Que o mês de março não se acabe no dia 31, mas que possamos vivenciar sua mensagem em nossas vidas durante todo o ano. Basta de lágrimas, vivam os sorrisos de uma vida justa, de respeito e plena de felicidade.

 

Osmar Gomes dos Santos, Juiz de Direito da Comarca da Iha de São Luís. Membro das Academias Ludovicense de Letras; Maranhense de Letras Jurídicas e Matinhense de Ciências, Artes e Letras.


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