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UMA PANDEMIA DE INSENSATEZ

Falar da pandemia da Covid-19 e todos os efeitos nefastos trazidos à vida de bilhões de pessoas em todo mundo já é lugar comum. Doenças, mortes, alteração de rotinas e todas as consequências já constatadas por todos.
 
Pensamos ter superado o ponto mais agudo da pandemia, em meados do ano passado, quando sofremos restrições e até a adoção de lockdown. Em seguida, pudemos respirar com a diminuição de casos e mortes. Mas a mutação, algo que já previsto no ciclo evolutivo do vírus, voltou a ameaçar com força e, especialmente no Brasil, elevou os números a patamares ainda não vistos antes.
 
Já tive a oportunidade de analisar a letargia na promoção de uma política nacional e integrada com estados e municípios para enfrentamento da Covid-19, o que até hoje não fora estabelecida. De todas as “caneladas”, a pior foi na saúde pública, que acarretou na falta de adoção orquestrada de medidas de contenção da Covid-19 e retardou o processo de aquisição de vacinas junto às farmacêuticas.
 
O Governo federal, com toda sua estrutura e capacidade de aglutinar interesses em favor das vidas brasileiras, continua dando bola fora. Embora fosse necessária postura diferente, não se pode esperar uma grande partida de um time feito com “pernas-de-pau”, que batem cabeça e não adotam medidas claras e integradas.
 
Mas algo que salta aos olhos, especialmente neste que é o momento mais delicado – com recordes de doentes, de médias móveis, de ocupações de leitos e de mortes diárias –, é que temos nos deparado cotidianamente com abusos daqueles que insistem em quebrar orientações e regras.
 
Noutra linha temos governadores e prefeitos em luta permanente, enviando mensagens nos noticiários, entrevistas coletivas e realizando apelos, a ponto de implorar publicamente pela adoção de medidas preventivas. Para alguns, esse esforço pouco tem adiantado.
 
Em uma semana em que o Brasil bateu recordes de contaminações e mortes diárias em 24 horas, continuamos a ver pessoas que parecem não se importar com o grave cenário. Estão, literalmente, dando de ombros. Insistem em ver o mundo sem descer do seu pedestal. Um mundinho resumido à própria bolha da ignorância, frente ao caos vivido na sociedade.
 
Natural que haja a necessidade de sair por parte de alguns e para determinadas finalidades: trabalhar, fazer compras e outros fins essenciais. Mas o que justifica o sair para as baladinhas, bater perna em local público, jogar bola com amigos, passear em shoppings? Nada!
 
Perdoem-me os que assim o fazem, mas este não é o momento para tal libertinagem. É preciso que o brasileiro reflita sobre suas atitudes. Temos uma estrutura de saúde agonizando, à beira do colapso, com limitações de toda ordem e profissionais aos limites da exaustão, em todos os estados da Federação.
 
Sobre a essencialidade de cada atividade laboral, não entro nesse mérito, uma vez que cada trabalho é o essencial para a sobrevivência daquele que o tem, bem como de sua família. Mas precisamos de empatia para despertar o senso de responsabilidade que nos falta para o momento.
 
Uma pausa, por favor! Uma pausa para que o vírus deixe de circular com a intensidade vista nas últimas semanas. É passível a compreensão de que a reclusão é difícil, mas ela é necessária. Quando da impossibilidade de manter-se em casa, devido algum compromisso inadiável, é importante que haja o cuidado, o uso da máscara, o distanciamento, as medidas de assepsia para diminuir a possibilidade de contágio.
 
O que não se pode aceitar é diante das medidas restritivas, que visam a tão somente resguardar vidas, ainda tenhamos que constatar, a cada fim de semana, um festival de desrespeito às normas. Casas noturnas lotadas, festas clandestinas, reuniões e eventos que possibilitam a aglomeração, em sua maioria injustificável. Para completar, não se adotam as medidas de proteção. Qual o sentido?
 
São, de fato, tão importantes e necessárias as baladas? Os passeios pelo Centro Histórico não poderiam esperar um pouco mais? O futebol do fim de semana não poderia ter uma pausa? As festas com centenas de jovens não poderiam ser reprogramadas? Não se pode classificar acontecimentos como esses como normal.
 
Diferentemente da primeira onda, a segunda leva da Covid-19 parece não obedecer limites de idade, alcançando, sobretudo, o público jovem. Justamente aquele que mais tem dado de ombros, exatamente aquele que quebra as normas para sair na baladinha. Parece que o lema de viver dez anos em um.
 
Para os que se acham de ferro e acreditam que por nenhum mal serão acometidos, cuidado! Para aqueles que pensam em viver o dia como se fosse o último, pode, de fato, estar concretizando seu desejo internalizado. As festas, bares, peladas, praças e todas as outras formas de aglomeração continuam com vagas para os insensíveis que querem desrespeitar os limites do bom senso. Por outro lado, as UTIs estão lotadas e já não dão conta das filas para internação. Pense bem!

 

Osmar Gomes dos Santos, Juiz de Direito da Comarca da Iha de São Luís. Membro das Academias Ludovicense de Letras; Maranhense de Letras Jurídicas e Matinhense de Ciências, Artes e Letras. 


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