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VIDA LONGA AO REI

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Sexta-feira, 23 de outubro de 1940. Na cidade de Três Corações nascia Edson Arantes do Nascimento, que ainda criança mudou para São Paulo (Bauru). Dizem que um apelido pega justamente quando com ele nos chateamos, razão pela qual Edson virou Pelé ainda em sua fase adolescente. A brincadeira resultou em uma nova certidão de nascimento, com um nome que marcaria um século XX.
 
Pode-se falar tudo de Pelé. Do artista, do cantor, do homem social e político, ou simplesmente da sua peculiar e única habilidade dentro das quatro linhas. Mas Pelé é, antes de tudo, um brasileiro, que como se convencionou afirmar mais recentemente: não desiste nunca. Aos dez anos, ao ver seu pai, Dondinho, aos prantos após derrota do Brasil para o Uruguai, no episódio que se eternizou como “Maracanaço”, ele prometeu: não chore, pai, eu ganharei uma Copa pra você.
 
Filho do gueto, veio das trincheiras de um Brasil que parece nada ter mudado desde sua meteórica ascensão. Embora tenha nascido depois da copa da França de 1938, o que para muitos foi um divisor de águas entre o futebol elitista e excludente para um esporte mais democrático, não se pode imaginar que vencer nessas condições tenha sido tarefa fácil. Pelé já nasceu com inimigos naturais e centenas de obstáculos a sua frente. Pobre, preto, morador da periferia que via no futebol a saída para uma vida melhor.
 
Descoberto na várzea, integrou a categoria de base do Santos Futebol Clube e não tardou a estrear na Seleção Brasileira de Futebol. O preconceito era latente, tanto nos clubes onde passou, quanto na Seleção. A discriminação era algo visível por parte dos adversários, da torcida e da arbitragem. Não havia a quem recorrer, pouco se podia fazer em uma sociedade racista cujos traços eram o expoente de um comportamento doentio em várias partes do mundo.
 
Ele era caçado dentro de campo, fosse pelo futebol ou pela sua cor. Adversários não tinham dó ou pudor. Árbitro fingia não ver, preferia dar de ombros para as agressões por ele sofridas. Replay não era utilizado, as câmeras eram limitadas em quantidade e recursos, lances não eram revistos. Ou aguentava ou pedia para sair. E Pelé saiu.
 
Mas não foi abaixando a cabeça, nem jogando a toalha. Saiu daquela marcação agressiva, com sua ginga de corpo, destreza e velocidade. Enfileirava os adversários e só era parado pelos seus colegas de clube, carregado pelos braços após mais um gol anotado. A resposta havia sido dada em tom de genialidade, com traços rasantes, voos cinematográficos, chutes certeiros. Seu canhão estava no pé direito, sua arma era o futebol arte.
 
Agora ao mundo preconceituoso não havia o que fazer, ou aceitava o “pretinho” ou virava as costas ao futebol. A resposta veio após a Copa do Mundo da Suécia, em 1958. Brancos, amarelos, pardos e pretos; raças, etnias, credos, religiões, nacionalidades. Todos se renderam ao molejo daquele moleque de 17 anos. O que passou a se comunicar na linguagem da bola, o futebol virou paixão mundial, um esporte capaz de unir os povos.
 
Na era do rádio ou dos televisores bicolores, quando não se imaginava a internet e McLuhan sequer havia profetizado a aldeia global, Pelé já quebrava tabus, rompia muralhas, construía recordes, tornava-se uma lenda, edificava um império. Reino este que não há, no planeta, quem ouse contestar consciente e coerentemente.
 
O homem é um monstro sagrado do futebol, mas defini-lo com palavras é quase impossível. Algumas até ajudam a ilustrar, nada mais que isso. Pelé é para ser assistido, ser sentido, para ser apreciado: futebol na essência. A tecnologia para sua época não ajudava, era futebol em estado puro. Bolas pesadas, chuteiras de couro bruto, roupas de algodão sem qualquer conforto. Quando molhados, o peso se multiplicava por dois.
 
Foram quase mil e trezentos gols oficiais, mais de mil pelo Santos, sendo carrasco dos corintianos ao anotar 51 gols em 50 jogos contra o alvinegro. Pela seleção foram quase cem bolas no fundo do barbante e, por três oportunidades, chegou a marcar mais de cem gols em um único ano; em 1959 foram 127, recorde nunca alcançado.
 
Virou sinônimo de perfeição… o Pelé da turma, o Pelé do jornalismo, o Pelé do automobilismo, o Pelé da moda, o Pelé, o Pelé, o Pelé. Quando alguém, em uma área profissional, alcança a perfeição no ofício executado com esmero, é comum a comparação da excelência alcançada com as qualidades peculiares do rei das quatro linhas.
 
Com a bola no pé, no peito, na cabeça ou nas mãos. Sim, o rei foi para o gol em jogos oficiais em pelo menos quatro oportunidades na carreira, em substituição ao goleiro lesionado no curso da partida. Pelé era o que na gíria futebolística se costuma chamar de abusado. Mas era objetivo, sem firulas ou gracinha. Era obstinado e buscava o gol incessantemente.
 
Na semana que completa 80 anos de uma vida coroada, seus súditos apenas podem dizer: obrigado! Vida longa ao menino franzino, ao pretinho, ao abusado, ao eterno. Para os amantes do bom futebol, a unanimidade existe e tem nome: Edson Arantes do Nascimento, ou melhor, Pelé, O NOSSO REI.

 

Osmar Gomes dos Santos, Juiz de Direito da Comarca da Iha de São Luís. Membro das Academias Ludovicense de Letras; Maranhense de Letras Jurídicas e Matinhense de Ciências, Artes e Letras.


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