UMA FOLHA DE PAPEL

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         Nada mais necessito. Alimento-me da palavra, das ideias, das ilusões fugazes de um mundo que vai do real ao abstrato no simples limiar do pensamento. Sou poeta, escritor, literato, ensaísta ou apenas um entusiasta das palavras. Uma folha de papel e um lápis são as ferramentas que me bastam.
 
Sentado na calçada, sob uma marquise; ou à sombra de uma árvore, no banco de uma praça; nada mais preciso. Apenas os meus instrumentos são suficientes. Uma folha em branco que logo pode se transformar em uma macabra história, de narrativa sombria, digna de ocupar as mais lidas páginas policiais.
 
Nela transcrevo o real, a vida nua a crua, a história da vida como ela é. Uma vida sem dó nem piedade, que castiga e oprime. Que segrega, que mata, seja por causa da atuação, da cor, do sexo, das opções sexuais. Por ela mostro a realidade, a escassez, a aridez do sertão, os pés descalços e rachados que marcam a falta de oportunidades nas mãos calejadas do sertanejo.
 
Na folha de papel coloco as dores do povo baixadeiro, que conhece cada palmo dos segredos da sua peculiar natureza. Das secas aos alagamentos, do vai e vem nos campos, a pé ou de canoa, em busca do alimento diário. Escrevo o voo sorrateiro da jaçanã, a escapada da piranha que não se deixa alcançar pela malha da tarrafa.
 
Escrevo a infância. Uma infância sofrida, que levanta cedo, que trabalha na lavoura, que edifica a casa, que se aventura na pesca. Mas que também é criança, do sorriso maroto, da alegria escancarada, a ingenuidade peculiar que corre de pés descalços para driblar as adversidades da vida com uma velha bola de meia improvisada.
 
Na folha de papel escrevo a vida. Uma linda e bela mensagem daquelas que falam de quem faz o bem sem ver a quem. Ou mesmo deixar marcada, para que não se apague, a chama ardente de uma linda e platônica história de amor que faria qualquer Shakespeare suspirar e, tal como ele, se eternizar na literatura romântica ao longo dos séculos.
 
Papel. Nele, até a mais ácida crítica é rabiscada em rebuscados versos, cujo simples inverso encontra mais significado do que a mais explicita literalidade. Nada mais preciso, além das apreensões imprecisas represadas pelo olhar já quase cansado de uma vida que desfila carregada de narrativas que só querem ser dissertadas.
 
Uma folha de papel, um lápis. E aquele momento desapercebido, que não mais existe, passa a existir para posteridade. Escrevo, logo existe. Pode ser branca, amarelada, amassada, rasgada ou aquele velho e cinzento papel de pão. Nas mãos do poeta, a mágica ganha vida para que o bailar das letras transforme em colorido aquilo que é captado em preto e branco do antagônico cotidiano.
 
É a folha que nos acompanha ao longo de toda a vida. Nela é impressa nossa primeira marca, nosso nome. Acumulamos papeladas para tudo que fazemos em nossas relações sociais, aqueles que nos impõem deveres, bem como os que nos asseguram direitos. Assim como aquele que encerra nossa breve passagem sobre este chão.
 
É o papel do jornal matinal que nos informa, do livro que transporta conhecimento aos quatro cantos. Que permitiu a criação do mundo virtual, paralelo, que também tem os seus “papeis”, ainda que não tangíveis. O mundo só é mundo, real ou virtual, porque alguém ousou rabiscar as primeiras doses de conhecimento, permitindo a evolução da sociedade.
 
Apenas papel? Depende. Em branco, apenas papel. Mas certamente um convite para que uma imensidão de ideias pensamentos possam ser ali concretizados. Como cantou o poeta, numa folha qualquer se desenha um sol amarelo, uma luva, um castelo ou um guarda-chuva. A folha de papel é o quintal da imaginação, com um fim que ninguém sabe onde vai dar, se não tentar.
 
Não deixe a vida passar em preto e branco. Sempre haverá tempo de colorir o próprio arco-íris, de contornar as próprias nuvens, carregadas de angústias, de alegrias, de aspirações, de conquistas. Aqui, mais um papel, uma simples folha de papel que, só de birra, teimei em não deixar em branco.

 

Osmar Gomes dos Santos, Juiz de Direito da Comarca da Ilha de São Luís; Membro das Academias Ludovicense de Letras, Maranhense de Letras Jurídicas e Matinhense de Ciências, Artes e Letras.


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