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SALVE O CARNAVAL

Cantar, sambar, divertir-se, em meio a alegria, é algo já contabilizado no coração e na mente do povo brasileiro, que tem a autoestima e a felicidade por natureza, em sua essência, desde o primeiro contato com o mundo.

 Quão bom é ouvir um samba! Gênero musical que remete a tantas histórias e que traz na sua essência a representação de uma nação que tem miscigenação na base de seu desenvolvimento cultural.

 Melhor do que ouvir um samba, é ouvir dois, três, quarto sambas. É poder se deixar levar pelo embalo esfuziante que embriaga o espírito e entorpece os sentidos. Mas chamo atenção para um samba especial que ecoou de um dos menores municípios do país e que esteve em destaque neste Carnaval 2018.
 Refiro-me ao samba da G.R.E.S. Beija Flor, agremiação da pequena Nilópolis, do nosso tão encantado Rio de Janeiro, berço da beleza nacional. Ali reside a Beija Flor, que como ave de mesmo nome, pairou suas asas sob o sambódromo. Com irreverência, e uma verdadeira e profunda crítica social, a Beija Flor encantou e fez cantar o público da Marques de Sapucaí.

 Todas as alas foram produzidas com um mimo de sensualidade, leveza, responsabilidade, luxo. Mas não aquele dos altos custos, até porque a proposta da escola foi a de usar a criatividade para driblar a escassez de recursos financeiros. Faltou dinheiro, mas sobrou o luxo para uma crítica social afinada com a realidade que nos cerca e assola todos os dias.

 No riscado do bom samba no pé, a Beija Flor levou para a avenida a beleza da verdade sobre a política, a criminalidade, o preconceito, o abandono social. Como seria bom se ao invés dos arrastões tivéssemos corridas para abraçar uns aos outros, com alegria, com amor. Por que não sonhar com um mundo no qual ao invés do uso das armas para ferir o outro, possamos pegá-las para destrui-las, por não termos necessidade de usá-las.

 Que bom seria ver Pabllo Vittar em um carro alegórico apenas para demonstrar sua autoestima, sua alegria, sua liberdade, seu amor por si e pela pátria. Que não houvesse a eterna necessidade, das ditas minorias, de dar a “cara a tapas” para conquistar o respeito do próximo. O mínimo para uma nação que pretende ser grande.

Mas o amor pela arte, pela cultura, pelo sentimento de brasilidade prevaleceu. Mesmo diante do caos nacional que nos encontramos, dos lastimáveis encontros e desencontros da nossa tormentosa economia. Da nossa verte política nacional tão desgastada, com pontuais exceções, obviamente. 

 A Beija Flor nos trouxe uma profunda reflexão do momento crucial de um sistema político que não cabe mais em nosso país. Os poderes constituídos precisam de revitalização para o bem nacional e o resgate de nossa história – e faço mea-culpa, pois faço parte de um deles.
Ao falar do abandono, entenda-se aos valores da nossa pátria amada, a escola de Nilópolis externou o sentimento médio dos brasileiros com o aludido sistema político. O povo cantou e demonstrou não só a sua insatisfação, mas que chegamos ao limite dos abusos e desrespeitos aos preceitos da república.

A sociedade mostra-se atenta e imbuída nos ideais de que podemos servir na busca de uma pátria melhor, da vida com dignidade, exigindo uma nova postura dos governantes em todos os níveis para proporcionar qualidade de vida, saúde, educação e segurança para todos.

 O pássaro com maestria plainou na avenida do samba e ecoou para o mundo que o Brasil precisa urgentemente reencontrar sua pátria. A fé e a esperança ainda não sucumbiu e a mudança está em cada um de nós. Façamos, portanto, como a Beija Flor e enfrentemos os carmas internos, usando da irreverência e criatividade para rever os próprios conceitos, reviver os bons momentos, propagar o respeito e alimentar o amor. 

 Parabéns Beija Flor. Parabéns brasileiros que estavam no sambódromo!

 

 

Osmar Gomes dos Santos
Juiz de Direito da Comarca da Ilha de São Luís
Membro das Academias Ludovicense de Letra, Maranhense de Letras Jurídicas e Matinhense de Ciências, Artes e Letras.


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