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REDES LANÇADAS

Horas a fio mar a dentro, a experiência diz que aqui é o local exato. Tarefas compartilhadas, ancoro a embarcação, organizo o grupo em suas posições e, como diz o dito popular, a sorte está lançada. Atiro as redes ao mar. É apenas o início de uma jornada que pode levar 7, 10, 15, ou até mais dias.
 
O porão está abarrotado de gelo, só esperando o içar das redes. Hora de recolher, o processo é lento, a rede está pesada, sinônimo de fartura. Seguramente 200 a 300 quilos de pescado. A seleção começa ali mesmo, aquilo que fica e o que é dispensado, ainda com vida, mais algumas horas até organizar os peixes no porão.
 
Outros organizam o convés e a rede, que será lançada novamente. Tudo pronto, partimos para mais uma tentativa. Após algumas horas, momento de trazer as redes para cima, mas desta vez a leveza indica que a sorte da anterior não se repetiu. Alguns poucos quilos que rapidamente são acondicionados.
 
É hora de tomar a decisão: tentamos novamente ou partimos rumo a outro ponto que possa nos trazer a sorte grande? Motores acionados, a proa altiva cortando as ondas, lá vamos nós com as mãos calejadas e os olhos cheios de esperança rumo ao infinito.
 
O ofício é árduo, exige dedicação, disciplina e muito preparo psicológico. Estou no mar, mas já lancei anzol com vara de bambu, cheia de molejo.  Já joguei tarrafas e me aventurei em pequenas canoas rio adentro, ou mesmo em grandes lagos de águas intermitentes, alguns perenes. Pescador que se preze, vai onde o peixe está.
 
Nas horas de frio, no silêncio noturno, aqueço-me no cobertor de estrelas que cintilam a escuridão. Espalmada sobre a superfície da água, a lua convida para dividir companhia com os pensamentos devaneios. Onde está minha amada? Família? Amigos?
 
A vida no mar é um efusivo paradoxo de sentimentos e sensações que somente quem sente pode entender. Tristezas e alegrias estão sempre a se misturar nas lacunas de uma boa ou má pescaria. Rede cheia de vazio é sinônimo de amargura, uma dor profunda, um trabalho em vão, que não há alento que dê jeito.

Não me arrisco a descrever, tampouco tenho tempo para tal. O balançar diferente da embarcação denota uma inquietação incomum, nos entreolhamos e concordamos que é sinal de rede farta nas profundezas. Bingo!
 
Dias a fio, o ofício é duro. A chuva, o sol e até mesmo o mar revolto são intempéries com as quais já estou acostumado. Difícil mesmo é enfrentar a solidão. Essa é dura! Quando bate o cansaço, entre um laçar de rede e outro, cada um se acomoda em seus pensamentos, como se estivessem ludibriados pelo canto da sereia.
 
As lembranças atravessam a noite escura, acompanham a brisa caminha mansa sobre as águas na vã tentativa de encontrar em terra firme o motivo que o leva para além-mar. Sou pescador. Ganhei versos em Vinicius de Moraes, quando disse: “Vai, vai, pescador, filho do vento, irmão da aurora. És tão belo que nem sei se existes, pescador! Teu rosto tem rugas para o mar onde deságua. O pranto com que matas a sede de amor do mar!”
 
Assim sou eu, pescador, filho do vento, do sol, da lua. Mesmo diante das amarguras, não quero outra vida se não o mar, eterno, companheiro com quem muitas vezes divido a solidão e as lamúrias.
 
O porão parece ter o suficiente, é hora de levantar âncora e zarpar. É noite, estou eu na proa, Sentindo o vento frio que sopra a estibordo, aqueço-me com uma dose de conhaque. Mas algumas horas e já avisto pequenas luzes da terra firme.
 
Negocio os peixes, faço alguma caridade como forma de agradecimento, encerro o expediente e parto para encontrar esposa e filhos. Não há preço para o sorriso no rosto de cada um. Nem mesmo aquelas estrelas cintilantes brilham mais que os olhos marejados dos meus pequeninos.
 
Aproveito ao máximo, pois a estada é curta. Logo estarei de volta a lançar minhas redes. Minha outra casa é o mar. Desta vez, a fartura foi boa; da próxima, não sabemos. A única certeza é que mais uma vez seremos companhia de nós mesmos, dividindo nossos momentos com a incerteza, o frio, a lua, a chuva, o mar revolto. Tudo dentro do roteiro dessa vida a navegar.

 

Osmar Gomes dos Santos, Juiz de Direito da Comarca da Iha de São Luís. Membro das Academias Ludovicense de Letras; Maranhense de Letras Jurídicas e Matinhense de Ciências, Artes e Letras


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