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IMPRENSA DE LUTO

Reservo as próximas linhas para fazer um tributo justo, uma homenagem em tempo de um veículo de comunicação cuja narrativa transcendeu a história e fez parte da vida do maranhense, especialmente dos ludovicenses. Ao findar deste mês de setembro, o maquinário do jornal O Estado do Maranhão terá sido acionado pela última vez, imprimindo suas últimas linhas sobre o nosso cotidiano.
 
O anúncio  veio como uma bomba na Imprensa local, que não esperava um tão sólido veículo ruir frente aos desafios da modernidade tecnológica. Os motivos, obviamente, competem aos proprietários, não cabendo qualquer especulação, mas, certamente, as transformações conjunturais, trazidas pelo avanço do digital, impactaram as estrutura do periódico, assim como de tantos outros em todo o Brasil.
 
Cabe a mim, como escritor, imortal e pensador, debruçar-me sobre uma análise menos crítica e voltar-me para a trajetória deste importante jornal e seu peso social. Se considerar seu antecessor, a história vai remontar o ano de 1959, quando da fundação do Jornal do Dia.
 
Mas é somente em 1973 que o jornal ganhou o nome que o projetou. O senador José Sarney deu vida aos trabalhos de O Estado do Maranhão consolidando uma alteração de nome em relação ao antecessor. Naquele editorial, de 1º de maio de 1973, afirmou José Sarney “não temos nenhuma inauguração a fazer. Hoje, o Jornal do Dia chama-se O Estado do Maranhão”.
 
Com a mudança de nome, o periódico ganhava também casa nova, o maquinário mais moderno da época e uma roupagem que ultrapassava o embate político diário. Agora, havia espaço para o quotidiano da cidade sob várias vertentes: política, economia, lazer, esportes, serviços.
 
Era o espírito que carregava o seu co-fundador, ao afirmar que o objetivo do jornal era de modernizar a imprensa maranhense. Propunha a Inovação, a estética bem construída com traços gráficos sempre atuais e a elevação do nível dos debates propostos, inserindo os problemas cotidianos na ordem do dia.
 
A essência do bom jornalismo, pois, entendo que está aí: contribuir com informação de relevância para que os temas importantes da sociedade sejam permanentemente debatidos e solucionados pelos mais distintos segmentos sociais. Aí consiste a dimensão cultural da imprensa.
 
O mundo, o país, o estado, a cidade, a comunidade foram todos trazidos para dentro das folhas, ainda em preto e branco, mas, agora, bem mais cheias de vida. E assim foi ao longo dos 62 anos que se sucederam, com intensa produção jornalística, até culminar com o fatídico setembro de 2021.
 
Por muito tempo, O Estado captou fragmentos do cotidiano, ajudando a formar um álbum de registro da história que passava aos nossos olhos. Acontecimentos, fatos, realizações, conquistas, glórias, feitos épicos, problemas, pessoas.
 
Quantos não foram os grandes nomes que por aquelas cadeiras passaram. Estudantes, estagiários, recém-formados, profissionais que ascenderam na carreira após as experiências vividas nos bancos da redação. O jornal, a escola, a faculdade.
 
Após a morte do co-fundador Bandeira Tribuzi, em 1977, outros grandes profissionais exerceram o importante ofício do jornalismo. Repórteres, editores, colunistas, redatores, revisores, colaboradores eventuais. Bernardo Almeida e Bello Parga, Benito Neiva, Pedro Costa Antônio Carlos Lima, foram alguns desses profissionais que comandaram a produção diária de notícias.
 
O jornal foi palco de muitos acontecimentos. Histórias, aprendizados, críticas, controvérsias, erros e acertos. Convém lembrar que, antes de tudo, qualquer veículo de comunicação é feito de pessoas e tem sua linha editorial própria definida.
 
Certo é que a Imprensa agora está de luto, pois o fechamento não é bom para ninguém. Admiradores, apoiadores, críticos, opositores. Muitos já tiveram a oportunidade de se manifestar ao longo deste mês de setembro. De modo geral, imperou o bom senso, a reflexão e o reconhecimento do importante serviço prestado à sociedade.
 
Em tempos em que a verdade é atacada, o bom jornalismo é vítima de perseguição, o profissional jogado contra as cordas por aqueles que preferem a via antidemocrática, essa se torna uma perda incomensurável. Não se pode medir quão órfão ficarão as narrativas da sociedade. Por outro lado, há aqueles que ainda resistem ao advento da modernidade e seguem impávidos, mas, agora, com ainda mais responsabilidade.
 
Eis a roda da história. Fecha-se um ciclo, na esperança de que outros possam ter início. A última reunião de pauta, a derradeira reportagem, as revisões finais. Conversam dão conta de que é possível a manutenção de uma versão digital, que assim seja. Fato é que ao  apagar das luzes deste setembro, na Avenida Ana Jansen, 200, bairro do São Francisco, as máquinas que tanto barulho fizeram por tanto tempo, adormecem. 
 
Aplausos para todos que ali fizeram história. Parabéns aos valorosos profissionais que ajudaram a revelar um pouco mais do cotidiano de nossa cidade. Fica o reconhecimento por tudo que fora produzido e a reverência, para a eternidade, pelo desafio de ousar e inovar sempre.Eu fui jornaleiro . Eu gritei o nome do Jornal O Estado do Maranhão nas ruas de São Luís.

 

Osmar Gomes dos Santos, Juiz de Direito da Comarca da Iha de São Luís. Membro das Academias Ludovicense de Letras; Maranhense de Letras Jurídicas e Matinhense de Ciências, Artes e Letras


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