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III – Artigos


      Para começar, permitam-me rememorar um pouco da história que atribuem a mim no mundo contemporâneo. Surgi ainda no século XVIII, como uma melhoria de outros costumes já utilizados, caindo rapidamente no gosto da nobreza e até da realeza. Para mim, criaram alternativas de uso, como o corte na parte de trás que facilitava o andar a cavalo, dentre outras formas padronizadas para exibição.
 
Tenho uma família um tanto considerável, blazer, smoking, paletó, fraque e até o semi-traque, este último uma invenção a brasileira. Minha apresentação, na verdade, deveria ser uma composição rigorosa de três peças, onde se inclui o colete às peças que envolvem os membros superiores e inferiores. Mas aqui me exponho de forma simples, no conceito mais usual que se dá ao terno.
 
Ganhei a companhia da gravata, com quem costuma causar ótima impressão. Transmito uma aparência solene, formal, sóbria e mesmo quando não estou devidamente a combinar com o conjunto, percebe-se o esforço dos ombros sobre ao quais me apoio em querer causar boa impressão no seu interlocutor.
 
Em determinada época, virei sinônimo de bom gosto, requinte, glamour. Uma peça de distinção entre homens simples, do povo, e aqueles mais abastados. Possuir-me passou a ser uma questão de status, demarcando posições sociais e elevando comuns a outro patamar.
 
Na realidade brasileira, embora sirva para marcar uma rigorosa posição no cenário jurídico, tal como o jaleco marca na área médica, confesso que por vezes chego a presenciar comportamentos que são tomados pela vaidade e soberba de quem, posso dizer em segredo, sequer merece a honraria que ostenta ter. Há dias, portanto, que volto para casa apenas com o desejo de recolher-me em meu guarda-roupa da vergonha.
 
Por essa razão, em algumas oportunidades, por mais que esteja impecável, sinto-me como que em um porre só, em permanente estado de embriaguez. Na aparência posso estar impecável, acompanhado de bons adereços e um parfum marcante, mas por dentro pareço terem me retirado de uma centrífuga: desajeitado, lapela desalinhada, uma manga mais curta que a outra.
 
Esse estado lastimável reflete o comportamento social de certa parcela daqueles que insistem em me vestir como forma pura e simples de demarcar uma posição, ou mesmo pseudoposição, de poder. Pessoas que agem somente para subjugar os demais a sua volta.
 
Para completar, embora sujeito íntegro eu seja, em dada época adentrei em uma fase ainda mais conturbada para minha existência, quando resolveram me associar a uma figura quase indissociável no meu cotidiano: o colarinho. Mas não era qualquer um, e sim o colarinho branco. Mais uma página obscura em minha caminhada.
 
Sofro por vezes com essa grande teimosia em quererem me envolver aqui ou acolá com certas categorias de indivíduos, cujos exemplos de conduta ética e moral não são dos mais admiráveis. Ainda assim, tento que manter minha reputação intacta, não me importando a máxima ensinada pelos nossos pais de que “quem se mistura com porco, farelo come”.
 
Mas tenho algumas passagens curiosas, já tendo sido tema de, literalmente, um acalorado debate entre Ordem dos Advogados do Rio de Janeiro e Conselho Nacional de Justiça, quando aqueles causídicos queriam banir meu uso nos 40º do verão carioca. Até que, naquele cenário paradisíaco da Cidade Maravilhosa, cairiam bem umas férias: sombra, água de coco, praia.
 
Não pretendo – tal como nunca pretendi – ser símbolo de segregação entre comuns pelo simples fato de estar vestido. Gostaria de ser usado apenas como um traje para uma ocasião especial ou mesmo para a repetitiva jornada de trabalho, nada mais.
 
Para aqueles que já têm ou aos que pretendem a minha companhia, gostaria de lembrar-lhes os cuidados com uma eventual ditadura do terno. Meu poder, se é que o tenho, está relacionado apenas com a marcação de posições hierárquicas e papeis exercidos em dado contexto, jamais será critério para fazer qualquer juízo de valor quanto aos que me põem sobre os ombros.
 
Quero continuar tendo única e exclusivamente a finalidade de vestir, jamais, portanto, travestir a ponto de possibilitar a qualquer um a perda de sua própria identidade. Não é minha finalidade, por isso não me culpem, por eventuais desvios de personalidade.

 

Osmar Gomes dos Santos, Juiz de Direito da Comarca da Iha de São Luís. Membro das Academias Ludovicense de Letras; Maranhense de Letras Jurídicas e Matinhense de Ciências, Artes e Letras.


       Basta fechar os olhos para adentrar em um mundo obscuro, cheio de mistérios e acontecimentos que a ciência ainda hoje tenta explicar. Para a neurociência os sonhos podem ser uma reprodução daquilo que carregamos em nosso subconsciente, que captamos com sensibilidade do cotidiano vivido.
 
Representa uma experiência peculiar que pode ter distintos significados, possibilitando debates nas esferas religiosa, científica e até cultural. Para o campo no da ciência, especialmente a psicanálise, os sonhos há muito são estudados e costumam ser caracterizados como uma manifestação do inconsciente durante o sono, algo como um desejo reprimido que aflora.
 
Este é o sonho como reprodução em segundo plano daquilo que vivemos, das emoções que carregamos, dos desejos guardados, daqueles segredos escondidos em nosso âmago, muitas vezes egoístico. Lá estão, ainda de forma nada inteligível, pessoas com quem convivemos, lugares que frequentamos, situações vividas e até aquelas nunca vivenciadas, mas que juramos já terem ocorrido, tal como um “déjà-vu”.
 
Mas destaco um outro sonho, alimentado de forma consciente – com olhos bem abertos e pés no chão – e que simboliza o alcance dos objetivos que carregamos em vida. Sonhamos com nossas realizações desde a tenra idade. Quantos não são os meninos e meninas que sonham serem astros no esporte ou alcançar posição de destaque por meio dos estudos? 
 
Há sonhos mais modestos e, tenha certeza, outros ainda mais ambiciosos. Ainda assim, os sonhos não têm tamanho, não prevalecendo um sobre o outro. A única diferença, no entanto, parece estar na importância que o sonho tem para cada um de nós que se permite adentrar nos labirintos desse mundo idílico.
 
Sonha-se com tudo, desde amores a serem buscados, passando por lugares que se deseja estar ou morar, até as posições profissionais que se almeja galgar. Este sonho, nada tem a ver com aquele surrealista que nos apanha no pregar os olhos, ora romântico, ora transformado em pesadelo. Decerto que a vida tem lá seus pesadelos, deveras passíveis de serem contornados.
 
Mas o sonho que aguça meu pensar em um profundo exercício de reflexão é aquele que nos impulsiona, conscientemente, rumo ao desconhecido. Desbravar os mais dolorosos obstáculos, muitos deles impostos por um sistema ainda desigual. Para alguns, não resta outro caminho se não focar o horizonte e sonhar, afinal, sonhar não custa nada, já dizia o enredo.
 
Ele nos estimula, é o combustível daqueles que ousam sair do lugar comum, superar as dificuldades, ou apenas deixar para trás a famosa zona de conforto. Diferentemente daquele sonho estudado pela ciência, arrisco a dizer que este é ainda mais imprevisível e infinitamente mais fantástico. Aqui, sonha-se acordado, com foco naquilo que se almeja alcançar.
 
Não é apenas deixar acontecer. Não há espaço para acasos quando o sonho dá lugar a uma batalha incansável pela concretização do objetivo estabelecido, uma força descomunal que resulta em conquistas. “Deixa a vida me levar…” fica poético na letra da música, mas pode ser trágico ao se aplicar a uma filosofia da existência no caso concreto.
 
Sonhar com os pés no chão implica dedicação, comprometimento, abdicação, estudo, coragem. Cada uma dessas características somadas elevam um abstrato sentimento a categoria de algo tangível. O sonho está na base de tudo! Ele é a centelha capaz de acender e manter viva a força criativa que permite realizar.
 
Hoje, pedalamos, dirigimos, navegamos e voamos os sonhos de alguém que um dia se propôs pensar fora da caixa. Podemos estar, ainda que virtualmente, em qualquer lugar do mundo, dirigir conferências, participar de reuniões, realizar mais de uma centena de operações sobre nossas vidas na ponta dos dedos, por meio de um smartphone. Se isso é possível, certamente, lá atrás, alguém sonhou.
 
Não há tempo nem idade para sonhar, embora essa manifestação comece a ser vista, com muita ênfase, ainda na infância. Portanto, jamais inibir qualquer que seja o desejo de um pequenino. Os sonhos de hoje podem nos levar a lugares inimagináveis daqui a 50, 100 anos, e podem fazer do mundo um lugar melhor para se viver. Os maiores nomes da história sonharam.

Diante de um sonho – seja ele qual for, seja ele de quem for – nossa postura deve ser sempre de apoiar incondicionalmente. Afirmo isso porque, da minha pequena janela da qual ouso sonhar o meu mundo ao olhar as estrelas, o sonho enquanto objetivo é algo que promove o bem. Caso contrário, estaríamos, fatalmente, diante de um pesadelo.
 
Diferentemente daqueles sonhos que nos apanham ao fechar os olhos, precisamos exercitar mais aqueles cujas variantes podemos controlar. Devemos ser mais sonhadores e fazer dos nossos sonhos verdadeiros motivos para uma vida com mais sentidos, com mais sabor.

Sonhe! Ainda que sejam utópicos, inalcançáveis, bobos, aparentemente inúteis. Que seja volátil e efêmero como manda o roteiro dos dias atuais, mudando de enredo a cada dissabor, sonhe! Ter no que acreditar é viver eternamente uma vida de sonhos.

 

Osmar Gomes dos Santos, Juiz de Direito da Comarca da Iha de São Luís. Membro das Academias Ludovicense de Letras; Maranhense de Letras Jurídicas e Matinhense de Ciências, Artes e Letras.


      Meu tesouro, meu torrão
Oh, São Luís, terra de palmeira nativa cultivada pela natureza, das praias e seus encantamentos, das festas de reinado, dos cantos da sereia e do guriatã. Deste chão que dá a juçara, uma joia que alimenta famílias e ganhou festa cativa no calendário festivo. Ecoam os tambores, balança o maracá, gritam as orquestras, bailam os dançarinos em mais um São João.
 
Cá pra nós, o mês de junho em São Luís foge a qualquer normalidade. Seguramente não há, no Brasil, outro festejo tão marcante e capaz de se igualar ao colorido das ruas e à animação dos arraiais da capital maranhense. Festas ocorrem país afora e merecem sua importância, mas nada como a vibração vista somente por aqui.
 
Certa vez, em uma viagem fora do Estado, um colega pediu que eu falasse sobre esse período tão especial para todos nós. Confesso que me esforcei para falar um pouco de nossas brincadeiras, as características e até as origens de algumas delas. Até me saí nem, mas titubeei e tropecei nas palavras ao tentar expressar o que sinto ao pisar em um arraial de nossa cidade.
 
O atrapalho com as palavras é bem mais fácil de elucidar, visto que não se pode explicar aquilo que, a meu ver, é inexplicável. Nosso São João é como o fogo que arde sem se ver, que aflora e que se sente no mais íntimo de cada um. É o ritmo, a ginga, que nos carrega no embalo e, de repente, estamos a bailar entre tão receptivos brincantes. Uma festa democrática.
 
A fé é um elemento sagrado visto nas manifestações. Ela pode ser comprovada no dia ‪29 de junho‬ pelos devotos brincantes de Bumba-boi que marcam presença na Capela de São Pedro, ou no desfile, no dia seguinte, para São Marçal, um santo que somente aqui é reverenciado.
 
O São João daqui é algo peculiar. É capaz de reunir familiares e amigos que se envolvem em uma grande e democrática festa. Crianças correndo, soltando bombinhas com os sorrisos arrebatados nas carinhas ingênuas dos pequeninos. Não existe cansaço! Pausa apenas para apreciar os pratos típicos, alguns deles só existentes aqui.
 
Os já tradicionais pamonha, canjica e bolos se juntam a um colorido de sabores tipicamente maranhenses. Nosso genuíno vatapá, arroz de cuxá, peixe pedra, arroz de Maria Izabel, além das tortas que podem ser de camarão, de caranguejo, de sururu ou do que a imaginação mandar.
 
Após a paradinha para recobrar as energias, a folia recomeça. Algo místico está a acontecer no centro do arraial, palco das principais atrações. O Bumba-boi é o carro chefe com os seus cinco sotaques: Zabumba, Orquestra, Costa de Mão, Matraca e Baixada. É considerado Patrimônio Cultural do Brasil e pode se tornar Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela Unesco.
 
Mas o boi não é vaidoso e aqui nas terras das palmeiras ele urra apenas para pregar a união entre os povos. Assim, os batalhões dão passagem para as dezenas de brincadeiras que desfilam em nossos arraiais. A malemolência própria do Cacuriá, a irreverência das quadrilhas e as danças Portuguesa, do Boiadeiro, Country, do Coco e do Lelê.
 
De repente um clarão ao fundo, acolá, afastado da muvuca, um ritual tem início em torno do estalar das lenhas. É o fogo que aquece e afina os tambores que vão ecoar. O Tambor de Crioula é uma tradição que encanta e (re)encanta nativos e turistas, que mantem viva a luta e alegria do negro ao longo de gerações.
 
Cada brincadeira com suas histórias, lendas, tradições e legados. As roupas características que dão um colorido único e enchem de magia vista e admirada nos quatro cantos do mundo. Misturam-se formando um perfeito e único mosaico cultural onde não há distinções e todos se igualam pela alegria, fé e devoção.
 
Segue forte nossa secular tradição, repassada de geração em geração a importância histórica, do patrimônio inigualável e da cultura que urra no brado pujante de um povo guerreiro. Obrigado, São João! Parabéns, São Luís! Viva, meu Maranhão!

 

Osmar Gomes dos Santos, Juiz de Direito da Comarca da Iha de São Luís. Membro das Academias Ludovicense de Letras; Maranhense de Letras Jurídicas e Matinhense de Ciências, Artes e Letras.


       Educação é um tema sobre o qual sempre gosto de refletir e entendo que todos deveriam se interessar. Ela está na base, na formação de qualquer ser humano, seja aquela vista pelo viés escolar ou a aprendida em casa, por meio de valores transpassados de geração para geração. Sobre esta última debruço a presente análise.
 
Verificando atentamente as gerações mais jovens, notadamente aquelas denominadas de Z e Alpha, causa-me preocupação – e até certo espanto – a forma como a educação repassada aos mais jovens é conduzida. Não nego que sou um tanto conservador, razão pela qual carrego uma boa dose de saudosismo ao reverenciar a educação dada a mim e aos meus irmãos.
 
Nesse ponto, compreendi e aprendi que é preciso ser duro, incisivo, austero, mas sem ser rígido. Os pais precisam ser modelo para os filhos ao transmitir princípios e valores na relação com o próximo. Impor limites é o primeiro caminho para uma boa educação, visto que durante a vida, por diversas vezes, estes limites irão se manifestar nas mais diferentes áreas.
 
Os desafios são inúmeros e gigantescos, visto que os jovens de hoje já nascem e crescem em pleno contato com as novas tecnologias e estabelecem uma relação simbiótica com todo esse aparato. É uma geração para a qual o virtual se torna parte do real, e vice-versa. O perigo reside justamente nesse ponto, uma vez que relegamos aos meios tecnológicos ou a escolas a formação de nossos filhos e nos afastamos do dever educacional sob nosso teto.
 
Não raro vermos jovens, na ausência dos pais, passarem horas preenchendo o vazio em sites, aplicativos e jogos. É uma forma de compensação pela ausência, que se completa com a célebre expressão “sim”. Dizer sim para tudo, em qualquer situação, virou uma estratégica tentativa de conquista por parte dos pais. Assim, esperam ser amados pelos filhos a partir de sua benevolência.
 
Dessa forma, jovens parecem estar crescendo sem qualquer referencial daquilo que é certo ou errado do ponto de vista do convívio social. Vale apenas aquilo que ele, do ápice de sua breve e inexperiente existência, entende necessário para satisfazer as suas vontades. Telefones de última geração, voltinha no shopping, vídeo game da moda, viagens, festas, rolê com os amigos. Sem horários, sem limites para viver um mundo perigoso e traiçoeiro.

Um mundo no qual as relações têm sido marcadas pela efemeridade e sem qualquer profundidade, rasas como diz o jargão musical do momento: shallow now. Essa superficialidade é constatada também na relação do próprio jovem com a vida adulta, estudos, trabalho, compromissos e responsabilidades. Praticamente toda uma geração que ainda não definiu seus rumos.

O impacto não é visto apenas na já conhecida parcela dessa geração denominada  “nem, nem”, mas também entre aqueles que até buscam alguma ocupação. O problema deste último é que ela é temporária. Poucos jovens dessa parcela querem compromisso mais duradouro com o trabalho e privilegiam a ausência de rotina e do cumprimento de horários. Não querem criar raízes, seja laboral ou mesmo familiares.
 
Aquela efemeridade juvenil, na qual se via uma inocente “despreocupação” deu lugar a um aparente desprendimento. Esse  é um fenómeno social verificado nestas novas gerações e que desperta atenção, notadamente de estudiosos do comportamento e de educadores. Dentre as suspeitas, o excesso de autonomia e empoderamento das crianças desde as primeiras fases da vida.
 
Decerto que criamos filhos para o mundo. Daí porque precisamos atentar para uma conjuntura social mais complexa, paradoxalmente com maior possibilidade de se estabelecer relacionamentos, mas que estes carregam a característica peculiar de serem mais frágeis.

 
Empoderar não é nenhum problema. O ponto fulcral diz respeito aos limites que são impostos e a orientação para lidar com tal poder. A independência exige responsabilidade para lidar com as próprias escolhas diante dos macrodesafios políticos, econômicos, ambientais, de afirmação de minorias e até antropológicos.
 
Retomemos as rédeas de nossa juventude para que o comportamento pueril, carregado de ingenuidades e incertezas, não passe de poeira que se esvai com a brisa de um ou dois verões. Mantenhamos a base da educação que garante não apenas a sobrevivência da humanidade, mas a manutenção da vida em perfeito equilíbrio.

 

Osmar Gomes dos Santos, Juiz de Direito da Comarca da Iha de São Luís. Membro das Academias Ludovicense de Letras; Maranhense de Letras Jurídicas e Matinhense de Ciências, Artes e Letras.