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AMBULANTE

Sou aquele sempre com muita disposição, um sorriso no rosto e sempre atento ao aceno, ao assobio, ao olhar fixo, ou mesmo um simples psiu. Antes mesmo de o sol raiar, já estou com tudo pronto para mais um dia de pesado batente. Sou ambulante e hoje é mais um dia de bater perna pela cidade.
 
Costumo ter uma linha de produtos com os quais trabalho, razão pela qual viro uma espécie de referência. Mas confesso que estou sempre atento às novidades do momento, a chamada última moda, que oportuniza fazer uma grana extra.
 
Sigo meu próprio destino, hoje aqui, amanhã acolá. Praticamente não tenho ponto fixo, daí porque me enquadram em uma subcategoria de trabalho. Pulo de praia em praia, vou para os calçadões e ruas movimentadas dos grandes centros urbanos, marco presença dentro dos coletivos e até mesmo de casa em casa. Levo meus produtos a quem precisar: no conforto da espreguiçadeira a beira mar, ou na comodidade de cada lar.
 
Olá minha patroa! Bom dia meu patrão! Como vai criançada? Olha o queijinho assado, camarão, ovo de codorna, amendoim, empadinha, suquinho, cocada, bombom caseiro. Quem nunca se deparou com uma situação dessas no seu cotidiano?
 
Mas não para por aí. Tem também protetor solar, bronzeador, pulseira, cordão, anel, óculos, tatuagem, chapéu, brinquedo para os pequeninos, bola, chaveirinho, rede, eletrônicos, balde, cadeira, cesto, panelas, tapete.
 
E tem que ter a pechincha. Aperta daqui, arrocha de lá, e chegamos no preço que fica bom pra mim e para o cliente. Dependendo do ramo, quando vou de casa em casa, vendo até no crediário, para pagar no longo prazo e em suaves prestações. Nada de maquininha, é tudo na palavra. A relação é de confiança.
 
Meus passos nunca são os mesmos, cada dia estou em um canto diferente, sigo a roda da oportunidade de fazer um bom negócio. Mas apesar da dura rotina, preciso tomar certos cuidados. Não posso arriscar cair doente, seja lá por qual motivo for. Não tenho um porto seguro trabalhista. Direitos, garantias, férias? São palavras que desconheço.
 
Não posso parar, porque sem trabalhar não tem o que comer. Acordo todos os dias com uma única missão: garantir o sustento da família hoje. Amanhã é outro dia. Se o dia é de sol, lá estou. Se chove, não me acanho e coloco o pé na água. Na verdade já me acostumei às intempéries e tenho minhas artimanhas para driblar os seus efeitos.
 
Mas minha existência é um tanto paradoxal. Para a maioria da população sou apenas mais um anônimo e alguns sequer dão atenção ao trabalho que realizo com tanto sacrifício. E, apesar de trilhar por todos os cantos, para as políticas públicas governamentais faço parte, hoje, dos quase quarenta milhões de invisíveis existentes no país. Sem lenço e sem documento.
 
Ainda dentro desse “paralelismo social”, que flerta com o anonimato e esbarra no abismo das políticas públicas, ironicamente fomos detectados em razão dos efeitos trazidos por outro ser invisível: o novo Coronavírus.

 

Osmar Gomes dos Santos, Juiz de Direito da Comarca da Iha de São Luís. Membro das Academias Ludovicense de Letras; Maranhense de Letras Jurídicas e Matinhense de Ciências, Artes e Letras


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