Por Osmar Gomes dos Santos
Dizem que a Baixada não é um lugar; é um estado de espírito — uma geografia que se mede menos em quilômetros e mais em intensidade. Para quem olha de fora, apressado, a Baixada pode parecer apenas um borrão de concreto, trens que cortam o horizonte e o sol que, ao se pôr, tinge de laranja o pó que flutua nas esquinas. Mas, para quem habita esse solo, a Baixada é um organismo vivo, uma tapeçaria tecida com fios de resistência, suor e uma criatividade que não conhece limites.
E o que dizer dos baixadeiros? O baixadeiro é feito de uma liga metálica própria, forjada na resiliência do cotidiano. É mestre da improvisação. Enquanto o resto do mundo planeja, o baixadeiro resolve. Conhece a dinâmica do transporte, o atalho que economiza tempo, a hora exata em que a vizinhança silencia para dar lugar ao som da vida. Traz no olhar a clareza de quem aprendeu, muito cedo, que o horizonte não é um limite, mas um convite — ou um desafio a ser vencido com a coragem de quem madruga antes mesmo de o dia decidir nascer.
A Baixada é um terreno de contrastes profundos. É onde a escassez, muitas vezes, se encontra com a abundância de humanidade. Nas esquinas, o papo é filosófico e mundano, circulando entre a política do país e o preço do café. Há uma poética do cotidiano no barulho das feiras, na fumaça que sobe dos espetinhos, na música que escapa de uma janela e cria uma trilha sonora coletiva. O baixadeiro não vive isolado; vive em constante diálogo, ainda que esse diálogo seja feito de silêncios compreendidos ou de olhares que trocam notícias.
Há uma força quase telúrica no modo de ser baixadeiro. É uma identidade que se orgulha de não ser “de cristal”. É uma cultura que transforma a periferia em centro e que entende que a vida real acontece na calçada, na praça, no boteco, no campo de várzea. Onde outros veem precariedade, o baixadeiro cultiva comunidade. Sabe que, se o governo esqueceu, o vizinho lembra; se a estrutura falha, a rede de apoio se estende, invisível, mas inquebrável.
Ser baixadeiro é carregar uma bandeira que não precisa ser hasteada, porque ela está no caminhar, na fala e na forma de encarar o mundo sem pedir licença. É ser dono de uma elegância que não precisa de etiquetas, apenas de autenticidade.
A Baixada, com seus baixadeiros, é um lembrete constante de que o Brasil não acontece apenas nos cartões-postais. O Brasil, na verdade, acontece ali, onde o pulsar é mais forte, onde a vida é intensa, bruta e profundamente terna. É um chão que guarda histórias de quem não se rendeu ao destino e preferiu, com as próprias mãos, escrever a própria crônica, linha por linha, dia após dia, no cimento e na alma.
O que define, na sua visão, a marca mais forte que o ambiente da Baixada deixa na personalidade de quem cresce nela?
Osmar Gomes dos Santos é Juiz de Direito na Comarca da Ilha de São Luís (MA) e presidente da Academia Ludovicense de Letras. É membro da Academia Ludovicense de Letras, da Academia Maranhense de Letras Jurídicas, da Academia Literária do Maranhão e da Academia Matinhense de Ciências, Artes e Letras.






