*Por Osmar Gomes dos Santos
Refleti bastante sobre o que escrever e sobre como ocupar este espaço nesta semana. Diante de novos acontecimentos de violência contra a mulher, proponho, mais uma vez, uma reflexão sobre o tema.
Decidi discorrer novamente sobre a temática após a agressão sofrida por uma enfermeira no último fim de semana. Agressão, não. Tentativa de homicídio advinda de uma mente desequilibrada que, como já se tornou padrão, não aceitava o fim do relacionamento.
O título que trago é deveras provocante, pois remete ao argumento do covarde, que se baseia, em regra, no amor que diz sentir pela vítima para estabelecer um perímetro de dominação, um perigo que mistura o sentimento com a ideia de posse. Fórmula, no mínimo, trágica.
Amor? Que amor? O certo é que esse sentimento nunca existiu ou, há muito, ficou pelo caminho. Ou, ainda, transformou-se em um raso sentimento de posse, sustentado por uma cultura de dominação por parte do homem que acha que pode tudo.
O sentimento que se traduz em um cercado, que impõe limites à mulher e a impede de viver a própria vida, não pode ser amor. Quem assim pensa certamente abriga um sentimento que já se esvaiu ao longo dos anos de repressão.
Frente a uma enorme pressão física e psicológica, a situação tende a se agravar quando a mulher decide conquistar a sua liberdade. O amor doentio, aquele que aprisiona, recusa-se a aceitar o “não”.
Amor? Não. Na ótica do abusador, talvez. Para quem sofre a violência, é uma sentença que condena à prisão, sem data limite para o fim da pena, impondo condições e condutas a serem obedecidas, sob pena de se consumar uma ameaça ainda mais danosa.
Muitas vezes sem apoio, a mulher não vê qualquer saída para se livrar das algemas psicológicas. Por consequência, não vislumbra o fim de uma pena que paga por um dia ter acreditado no próprio conto de fadas.
Há que se questionar também todo um sistema, não apenas o da persecução penal, mas aquele que envolve o debate público, a educação e a reestruturação das famílias. Homem que é homem não agride uma mulher, e esse é um comportamento que se aprende.
Sozinha, fechada entre quatro paredes e sob uma nuvem obscura, a mulher não encontra forças e condena a si mesma, adotando uma atitude de conformismo e aceitação que parece trazer algum alento à alma.
O final feliz ficou para trás, nas páginas manchadas de gritos, insultos e agressões. Na mesma toada, esvaíram-se as juras de amor eterno, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, até que a morte os separe.
Morte, aliás, que temos como inevitável ao fim da caminhada, caso seja seguida a ordem natural. No entanto, para algumas mulheres, aprisionadas em um amor que não se explica, ela chega mais cedo.
Volto à questão inicial: amor? Que amor é esse que aprisiona, que maltrata, que faz chorar e sofrer? Que mata?
Osmar Gomes dos Santos é Juiz de Direito na Comarca da Ilha de São Luís (MA).
Membro das Academias Ludovicense de Letras- ALL; Maranhense de Letras Jurídicas – ALMA; Academia Literária do Maranhão – ALL e Academia Matinhense de Ciência, Artes e Letras – AMCAL.




