*Por Osmar Gomes
Há mais de 400 anos, os franceses aportaram por cá. Uma aventura da qual jamais saberemos ao certo se foi um acidente de percurso ou se aqui chegaram com o firme propósito de fincar raízes sob a Linha do Equador.
Decerto, não imaginavam que deixariam um legado com histórias e feitos que atravessariam gerações — como se pode ver no cotidiano da cidade —, incredulidade que advém, especialmente, após a derrota para os portugueses.
A passagem pela Ilha de Upaon-Açu, no entanto, deixou marcas de notório contorno e mudou o olhar sobre a ocupação portuguesa que se sucedeu anos mais tarde. Da invasão francesa sobreveio um maior interesse da Coroa Portuguesa em ocupar as terras maranhenses.
Para cá vieram pessoas de posses, capitães e até alguns malfeitores, por assim dizer. Vieram também escravizados, que ergueram a capital maranhense e a quem devemos o suor derramado para edificar as mesmas paredes que, hoje, gemem diante de tanto descaso.
Notadamente, um ponto alto dessa ocupação foi a arquitetura, que possuía grande relevância para a época e que, ainda nos dias atuais, é tida como um feito de reconhecida envergadura. Os desafios eram inúmeros para lançar ao mar navios carregados de azulejos e pedras de cantaria, a fim de dar contornos à cidade que viria a ser a capital do Maranhão.
Não por acaso, esse esforço rendeu a São Luís o reconhecimento como a cidade com o maior conjunto de azulejos portugueses fora de Portugal. Fato que garantiu à capital maranhense o título de Patrimônio Mundial, conferido pela Unesco.
Azulejos que protegiam as paredes da maresia, mas que também diziam muito sobre as posses de seus donos. Assim como as eiras, beiras e tribeiras, os azulejos eram parte da condição social que posicionava o proprietário do imóvel naquele contexto.
Entretanto, toda essa história e beleza, que resistiram ao longo dos anos e ganharam notoriedade mundo afora, estão ameaçadas. Séculos de história se perdem com a deterioração provocada pelo vento, pelo sol, pela chuva e, principalmente, pela intervenção humana, que deveria ser a primeira a proteger.
Seja por ação ou omissão, o fato é que paredes históricas agonizam, e seus estalos, como gemidos, são ouvidos ao longe. Tal descuido já nos rendeu destaque nacional, notadamente negativo, em semanários assistidos por milhões nas noites de domingo.
E, por falar em intempéries, é bom que se diga: não se pode atribuir a culpa apenas à ação do tempo ou do clima. Desde que vivemos em sociedade, aprendemos a contornar os problemas climáticos e seus efeitos quando nos convém, é claro.
Como explicar a preservação do patrimônio em tantos outros lugares, no Brasil e no mundo? Por que somente em São Luís parece existir um grande obstáculo chamado “falta de vontade política” para garantir a manutenção adequada dos casarões?
Destaca-se o enorme potencial turístico do nosso Centro Histórico, que, apesar de se caracterizar pelo conjunto arquitetônico português, possui o apelo peculiar de estar na única cidade brasileira fundada por franceses. Traduzindo: isso significa dinheiro, geração de renda e melhoria da vida de centenas de pessoas ligadas às atividades comerciais da região.
Importante dizer que não se trata apenas de recuperar os casarões — o que, inclusive, poderia ser financiado pelo poder público com condições acessíveis aos proprietários. Além disso, é necessário recuperar os espaços públicos, devolvendo segurança às pessoas que ainda fazem questão de conhecer o nosso Patrimônio da Humanidade.
É preciso devolver vida às ruas, com iluminação e ordenamento urbano, inclusive fazendo valer a repressão a condutas questionáveis, como o tráfico de drogas e o cometimento de delitos.
É de se ficar estupefato, por exemplo, ao constatarmos outras nações preservando suas histórias, raízes e tradições. O respeito que se tem pela cidade diz muito sobre o seu povo; sobre como ele olha para o passado no presente e sobre como constrói o futuro.
Quando a conexão entre o ontem, o hoje e o amanhã se perde, ficamos à deriva de nós mesmos, e isso é algo perigoso. Estamos fadados a perder o fio condutor que liga passado e futuro, sem qualquer possibilidade de resgatar uma história que agoniza e geme ao ser apagada todos os dias.
*Osmar Gomes dos Santos é Juiz de Direito na Comarca da Ilha de São Luís, Maranhão. É Presidente da Academia Ludovicense de Letras (ALL) e membro das Academias Maranhense de Letras Jurídicas (AMLJ), da ALMA (Academia Literária do Maranhão) e da AMCAL (Academia Matinhense de Ciências, Artes e Letras).





