*Por Osmar Gomes dos Santos
Há dias que rememoramos ano após ano e que trazem marcas próprias, não consistindo em mera data que homenageia fatos ou personalidades, mas que carrega significados e histórias.
O 8 de março é um deles, que nos toma como uma espécie de memória coletiva. Ela adentra nossas casas, senta-se à mesa, ocupa os debates e pergunta, com delicadeza e firmeza: que lugar a mulher ocupou ontem, ocupa hoje e ocupará amanhã?
Foi-se o tempo – e assim deve ser – em que a mulher viveu à margem das decisões que moldavam um mundo marcado pelas relações patriarcais. Em praticamente todas as sociedades, sua existência era apagada, relegada a uma importância secundária de procriar, cuidar da casa e da família.
Nesse modelo antigo – que, por vezes, insiste em dialogar com o presente – a autoridade masculina era algo natural. O pai decidia, o marido determinava e a mulher compreendia bem o seu papel e seu lugar. Uma estrutura social construída sob a ótica masculina.
Mas a história tem um hábito curioso: ela muda quando alguém se recusa a aceitar o que parecia definitivo. E foram muitas as mulheres que, em diferentes épocas, começaram a questionar esse lugar imposto.
Em fábricas, escolas, praças e assembleias surgiram vozes que transformaram o curso do tempo. Maria Firmina dos Reis, por exemplo, marcou época no Maranhão e no Brasil por ousar questionar, estudar, escrever e inovar o papel da mulher na sociedade.
Assim como ela, muitas vozes ecoaram do chão de fábrica e elevaram o tom no momento de dor das jornadas exaustivas, salários menores que os homens e condições precárias. Invisíveis para o Estado, para as leis e para a sociedade, elas resistiram.
Não obstante, organizaram protestos, greves e movimentos. Reivindicavam algo simples, mas revolucionário para a época: respeito, dignidade no trabalho, igualdade. Daí advém a luta pelo direito ao voto, que chegou de forma modesta e se consolidou com o passar das décadas.
Cada conquista abria espaço para outras, como o acesso à educação, ao mercado de trabalho, à política e à ciência. A cena doméstica foi trocada pelas cadeiras das universidades, os bancos dos tribunais, posições em empresas e assento no parlamento.
Mulheres discursaram, marcharam e enfrentaram resistência para conquistar algo que hoje parece elementar: participar das decisões políticas de seu próprio país. A luta valeu a pena e as conquistas consolidaram marcos civilizatórios importantes.
Restou comprovado que quando as mulheres avançam, a sociedade inteira avança com elas e ninguém fica para trás. Comunidades tornam-se mais justas, economias mais fortes, famílias mais equilibradas e democracias mais completas.
Mas, apesar das conquistas, sabe-se que o caminho não é plano. Mulheres continuam enfrentando desigualdades salariais, barreiras profissionais e violência em diferentes formas.
Daí porque quando celebramos o dia da mulher, reafirmamos que evoluímos enquanto seres humanos e reacendemos a esperança para seguir enfrentando o machismo estrutural que molda comportamentos e se manifesta nas mais diversas relações sociais.
Portanto, 8 de março é momento para comemorar os direitos conquistados, mas, ao mesmo tempo, lembrar que a equidade tão esperada ainda delineia o horizonte ao fim de uma estrada a ser percorrida.
Osmar Gomes dos Santos é Juiz de Direito na Comarca da Ilha de São Luís (MA).
Membro das Academias Ludovicense de Letras, Maranhense de Letras Jurídicas, da ALMA – Academia Literária do Maranhão e da AMCAL – Academia Matinhense de Ciências, Artes e Letras.




