*Por Osmar Gomes dos Santos
A sociabilidade humana guarda características deveras peculiares. Abandonamos as cavernas, passamos a viver em grupos nômades até criarmos raízes comunitárias.
Edificamos cidades, criamos nações, estabelecemos relações de toda ordem. Criamos conexões e passamos a significar a proximidade física como subterfúgio à autossuficiência, na simplória compreensão de que somos interdependentes.
Vivemos episódios dos mais diferentes no curso da história e em todos eles, com exceção do atual, estávamos de alguma forma verdadeiramente conectados aos comuns. Fosse por laços consanguíneos ou identidade territorial, religiosa e cultural.
Entrávamos pela noite, à luz e ao calor de uma fogueira. Proseávamos sentados na porta de casa ou no banco da praça. O compartilhamento das novidades – e até das fofocas – acontecia no “tête-a-tête”, com boas gargalhadas e até acirramento dos ânimos.
Adentramos no século XXI, avançamos nele pouco mais de duas décadas e, agora, estamos hiperconectados. Mas de que forma!
Criamos mecanismos diversos que nos interligam, mas as relações já não são tão profundas como outrora. Talvez, a palavra certa não seja “conectados”, semanticamente falando.
Acredito que o mais correto seria estarmos disponíveis para um eventual contato, que já rompeu a etiqueta pessoal e profissional e já não tem hora para acontecer.
Bites viajam para levar imagem e som, virtualizando e consolidando um novo normal, substituindo as presenças, o olhar, o aperto de mão, o afago e, em alguns casos, até mesmo as relações mais íntimas.
Uma sociedade cada vez mais paradoxal, que nos impõe um contexto em que a aproximação torna-se sinônimo de afastamento. Estamos cercados de assistentes virtuais, formando redes com inteligências de máquinas, mas carente de contatos humanos.
A internet é rápida, muito além do pensamento, e as respostas são instantâneas. Lançamos mão de assistentes ou aplicativos, alguns dos quais já controlam nossas rotinas, mas nenhum deles é capaz de passar um café e trocar alguns dedos de prosa desinteressada.
Estamos subestimando nossa capacidade cognitiva e deixando-nos substituir por uma certa inteligência artificial. Um lema tecnológico na mais pura dualidade criador versus criatura.
Quanto mais nos conectamos às máquinas, mais nos afastamos de nossos comuns. Longe do contato real, falamos por vídeo, trabalhamos em nuvem, ouvimos o outro na velocidade 2x e torcendo para que o áudio encerre.
Mas ao acelerar, ainda mais, nossa relação com o tempo e espaço, damo-nos conta de que há coisas que o 5G não é capaz de resolver, como o silêncio compartilhado.
O algoritmo compreende alguns de meus hábitos, mas não percebe a necessidade da companhia real e sincera, jamais saberá o motivo do sorriso ou mesmo da lágrima que rola rumo ao travesseiro em uma noite fria.
Enquanto esbanja a vida ideal e a felicidade perfeita, as redes escondem a dor, o sofrimento, sofrimento e a solidão que nos conecta a todos. Muitas vezes – ouso dizer a maioria – o sucesso das redes tem se tornado sinônimo de uma vida pessoal permanentemente inacabada.
Falando dessas tais redes, que estabelecem um novo ideal de sociabilidade, penso que o problema talvez não seja estarmos ligados a elas em alguma medida. O perigo consiste em perdermos a conexão real – com o outro e, especialmente, conosco mesmo.
Osmar Gomes dos Santos é Juiz de Direito na Comarca da Ilha de São Luís (MA).
Membro das Academias Ludovicense de Letras, Maranhense de Letras Jurídicas, da ALMA – Academia Literária do Maranhão e da AMCAL – Academia Matinhense de Ciências, Artes e Letras.




