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3- Crônica


Falar sobre sorriso não é fácil sobretudo no momento em que o mundo ainda assiste a tanta dor, seja pela persistência da Covid-19, seja em razão das guerras pelas quais passamos. Mas depois de já ter falado das palmas e do olhar, sentir-me na obrigação de falar sobre o sorriso e a sua essência, ainda que o ato de rir não caiba a todos da mesma forma. Aprendi que falar de sorriso, antes de tudo, é falar de esperança, que remete a perspectivas positivas acerca das situações mais diversas. Mas, ainda assim, tem gente que se utiliza de uma desfaçatez desmedida para transformar um ato tão nobre em uma atitude simplesmente reprovável, sob todos os aspectos. Revestida de um riso “amarelo”, sem graça, a expressão facial é utilizada, sobretudo, para enganar, ludibriar, maltratar. É o riso interesseiro, com finalidade particular, para mascarar apenas o interesse pessoal. Quando tal ato pecaminoso, desprovido de qualquer sinceridade, é praticado por um gestor público o perigo é ainda maior. Ele acena, abraça, fingi rir para o povo, quando na verdade, nos bastidores da inescrupulosa politicagem, ri do povo. Ri das crianças sem escolas, dos doentes sem postos de saúde, do pai e mãe de família sem emprego, sem renda, sem acesso a serviços básicos, sem dignidade. Reféns da ganância, ficam isolados em seus povoados em época chuvosa. Não deveria haver motivo para sorrir. Prática comum a todo gestor público? Naturalmente não, inclusive, acredito ser a minoria, diante de muitos gestores sérios. Há muitos que sorriem com sinceridade. Mas há aquele riso que não agrega, não soma, apenas subtrai dos que poucos já possuem. Retira a esperança, furta sonhos, rouba a oportunidade. São risos cercados de falsos risos, tal como eles, podendo ser encontrado por aí, em muitas esquinas, envoltos na redoma de um gabinete. Outros, porém, encontram-se perdidos em si mesmos, em seus devaneios. Posturas lastimáveis dos que agora já não riem de ninguém, restando a lamentação pelo ostracismo cavado dia após dia com as próprias mãos, ou seria pelos falsos sorrisos? Da mesma forma, fazer rir artificialmente um povo humilde e trabalhador, sob a batuta da velha política do pão e circo, não traduz a verdadeira essência da felicidade humana, como pretendia Aristóteles. Não há sorriso onde não há sinceridade, não há sorriso onde os sonhos foram roubados, o patrimônio maior, que é a dignidade de um povo, foi dilapidado. Mas nem tudo está perdido. Disse, acima, que um sorriso representa esperança e esta é algo que se renova. Quem disse que das lágrimas não pode aflorar um lindo sorriso? Não tenho dúvidas que isso acontece, neste momento, em muitos rincões deste Maranhão, do Brasil e do Mundo, a pesar dos problemas mais diversos. Muitas vezes, para resgatar o sorriso puro, verdadeiro e com a essência da felicidade, é preciso reorganizar a casa. Seja na vida pública, seja em nossa vida privada, quando precisamos nos reconstruir. O processo de mudança pode ser doloroso, arrumar a casa leva um tempo. Mas, da mesma forma como no âmbito pessoal, é necessário fazer valer a austeridade na condução da coisa pública.

Há um dizer popular que após a tempestade vem a bonança. Assim, a sabedoria popular nos traz o ensinamento de que não há sorriso sem dor, mas este quando chega vem para ficar.

Dizem que os olhos são a janela da alma, certamente o sorriso é a porta para o coração. E não há nada, nem um mal, que possa apagar o sorriso sincero, aquele guardado no âmago do cidadão que espera a oportunidade de poder colocar para fora.

Não por um momento, mas um sorriso que transforme, que reflita a dignidade, o respeito, a felicidade plena. Que os dias de desfarçatez fiquem no passado e que a cada novo alvorecer, uma possa trazer motivos para aflorar o sorriso verdadeiro, aquele que se renova e que é acompanhado do mais tenro e puro olhar, aquele que representa a janela da nossa alma

 

Osmar Gomes dos Santos, Juiz de Direito da Comarca da Iha de São Luís. Membro das Academias Ludovicense de Letras; Maranhense de Letras Jurídicas e Matinhense de Ciências, Artes e Letras