*Por Osmar Gomes dos Santos
Viajar é preciso. Seja para descansar, mudar os ares ou conhecer outros lugares, alguns deles inimagináveis. Encontrar novos cenários, buscar novos sabores, viver experiências e acumular memórias: é a oportunidade de aliviar o fardo e abstrair, em um ato de recompor as energias.
Este rito de organização e partida traz uma sensação um tanto quanto mágica. A mala e a bolsa fechadas, o relógio a espreitar o tempo e o coração pulsando diferente.
Não importa o meio ou o destino; pode ser de ida ou de regresso. Seja na rodoviária, no aeroporto ou à beira de uma estrada de chão, sempre há a promessa silenciosa de que algo bom nos espera nesse exercício de entrega que convida ao desprendimento.
Lá em cima, entre nuvens, tudo se torna diminuto; inclusive os problemas parecem menores, como cidades vistas de longe. O trem ensina o valor do tempo ao permitir observar as paisagens que passam devagar. É uma viagem que convida à contemplação, à pausa e ao silêncio, algo que tantas vezes nos falta.
Rumando para um canto qualquer, o carro se torna companheiro de muitas histórias. Cantamos alto, conversamos sem pressa e fazemos paradas inesperadas. É uma travessia que permite pausar, errar o caminho, mudar a rota ou seguir um impulso.
Cruzamos estradas, mares e céus rumo ao nosso destino. Da mesma forma, cruzamos a vida de pessoas, conhecemos histórias interessantes e abrimos um pouco da nossa.
O que, nos primórdios, era uma necessidade de sobrevivência tornou-se desejo, lazer e opção. Mesmo quando o objetivo é o trabalho, é possível desfrutar desta experiência fantástica: um momento de descontração, conhecer um restaurante diferente ou estender o papo após o dever cumprido.
É interessante ressaltar que o destino sempre reserva algo especial, sejam acontecimentos positivos ou surpresas diante de intempéries que podem surgir no caminho. Tudo faz parte do processo, assim como no ciclo da vida.
Há encontros que só acontecem na estrada, assim como há pessoas que cruzam nosso caminho por acaso e deixam marcas profundas. Um sorriso trocado, uma conversa breve ou uma ajuda inesperada são pequenas coisas que nos lembram que o mundo é maior e mais gentil do que imaginamos.
Também há desencontros, imprevistos e atrasos. Nem toda viagem é perfeita, contudo até nisso reside seu valor: aprender a lidar com o que foge ao controle, rir do erro e encontrar beleza no que não saiu como planejado.
Viajar renova o espírito porque nos tira do automático. Obriga-nos a perceber detalhes como o cheiro de uma comida diferente, o som de uma língua desconhecida ou o jeito próprio de cada lugar existir. Nesse processo, redescobrimo-nos; já não somos os mesmos ao voltar. Algo muda, ainda que de forma sutil.
Trazemos conosco um pouco do caminho, das paisagens e das histórias, assim como deixamos um pouco de nós por onde passamos.
No fim, viajar é isso: viver o inesperado. É ir em busca da felicidade não como um destino fixo, mas como movimento e processo. Porque, às vezes, a alegria não está no lugar aonde chegamos, mas em tudo o que carregamos pelo caminho. Portanto, não importa tanto para onde vamos, mas como percorremos essa longa viagem à qual estamos fadados.
Osmar Gomes dos Santos é Juiz de Direito na Comarca da Ilha de São Luís, Maranhão. É Presidente da Academia Ludovicense de Letras (ALL) e membro das Academias Maranhense de Letras Jurídicas (AMLJ), da ALMA (Academia Literária do Maranhão) e da AMCAL (Academia Matinhense de Ciências, Artes e Letras).




