*Por Osmar Gomes dos Santos
Viver em sociedade foi uma forma que o ser humano desenvolveu para resguardar um ao outro, garantir proteção, ajudar-se mutuamente, dividir tarefas e construir raízes que romperam com o nomadismo.
Ao longo da dita evolução – não aquela criada sob pretexto da superioridade de uns sobre outros –, desenvolvemos tecnologias das mais diversas. Aprendemos a plantar, aprimoramos a agricultura e substituímos a caça pela criação de animais para assegurar uma alimentação equilibrada.
Tecnologias nos permitiram aprimorar a forma como lidamos com a natureza, dominando seus segredos e contornando seus obstáculos.
Descobrimos o fogo, em torno do qual nos reuníamos para aquecer, contar histórias e compartilhar momentos. Aprendemos a forjar o aço e construímos embarcações para avançar além-mar e desbravar novas terras, levar e absorver conhecimentos.
Ensinamentos multiplicados como nunca visto, até então, a partir da invenção da prensa por Gutenberg. Páginas impressas em larga escala replicaram livros e folhetins aos quatro cantos do mundo.
Ganho em escala com a eletricidade chegando a quase todos os rincões. O conhecimento foi longe e estimulou curiosidade e ideias que viajaram em velocidade jamais vista, sem pedir permissão.
Vozes foram multiplicadas e ouvidas ao longo dos séculos, inspirando McLuhan a profetizar uma certa aldeia global, mesmo antes da chamada internet.
Chegamos a um oceano de informações, no qual mal conseguimos tocar as primeiras ondas, feitas por águas nas quais nunca nadaremos de braçadas. Mesmo sem tal capacidade, reinventamos uma inteligência computacional que desafia até os mais céticos.
Em velocidade frenética, o ser humano acelera seu passo para edificar a lógica da sociedade em rede, onde tudo está (hiper)conectado, sempre disponível ao trabalho, ao outro; mas, muitas vezes, em descompasso consigo mesmo.
Saímos das cavernas, na qual compartilhávamos o convívio com comuns ao calor do fogo, para construir uma aldeia global, cujo afago das telas recriam a roda da fogueira em escala planetária.
Como aquela luz do fogo que libertou da escuridão o _homo erectus_, o brilho das telas acalenta, mas, também, rouba o tempo, o sossego e, em boa medida, a nossa saúde. Logo nós, _homo sapiens_. A conversa profunda em torno da fogueira, cedeu lugar às rasas comunicações estabelecidas pela frieza das telas, em um espaço de concorrência com um mundo de abstrações que tomam nossa atenção, adormecem nossa consciência e abduzem nosso tempo.
Questiono-me, por vezes, acerca dos paradoxos de tal estágio de inteligência coletiva, construída sob sofrimentos, angústias e dilemas individuais.
A tecnologia que evoluiu e unindo povos e nações, também pode afastar. Mesmo conectados pelos sorrisos reproduzidos nas telas, propagando um estilo de vida ideal, pegamo-nos, não raro, em flagrante, distantes de nossa própria realidade.
As tecnologias ampliaram o alcance humano, que subiu ao espaço e pisou o solo lunar. Vivemos mais, com os avanços da saúde, mudamos hábitos de vida e alteramos nossa relação com o tempo e o espaço.
Trocamos as chamas das fogueiras, mas seguimos o instinto e o desejo humano de estarmos juntos. Até onde a tecnologia nos dará suporte nessa jornada? Só a caminhada dirá.
Osmar Gomes dos Santos é Juiz de Direito na Comarca da Ilha de São Luís (MA).
Membro das Academias Ludovicense de Letras, Maranhense de Letras Jurídicas, da ALMA – Academia Literária do Maranhão e da AMCAL – Academia Matinhense de Ciências, Artes e Letras.




