*Por Osmar Gomes dos Santos
Como de costume, sou pontual. Inicio minha jornada diária rigorosamente às 8h. Já está tudo no meu drive: pendências do dia anterior, expertise para lidar com novas tarefas, controle do tempo para ser resolutivo diante do maior número possível de problemas que me chegam.
Calculo tudo muito rápido, pois já incorporei a dinâmica do processo de trabalho. Estou apto a lidar com praticamente todas as demandas. Em caso de dúvidas, basta um input para atualizar minha base de dados. O conhecimento se renova.
Não faço pausas para descanso, sob pena de prejudicar minha produtividade. Preciso ser (e parecer) eficiente. Caso contrário, posso me tornar um “objeto” obsoleto, o que já não atende mais às necessidades dos dias atuais.
Ai de mim! Não posso me permitir tornar-me descartável. Na era da tecnologia, não posso me dar ao luxo de parar no tempo. É preciso limpar o cache, reconfigurar todo o sistema e seguir em frente, sempre produzindo. Números, números e números.
Para não impactar minhas entregas, essa reconfiguração precisa ser feita fora do expediente normal. Entro pela noite, roubo de mim algumas horas no fim de semana.
Na segunda-feira, às 8h, como de costume, já estou “afiado”, pronto para colocar em prática os ensinamentos incorporados nos dias anteriores. O problema é que a semana será ainda mais desafiadora, e não poderia ser diferente.
Já passei pelo processo de upgrade e, por isso, estou “reconfigurado”. Se agora sei mais, preciso entregar mais. E nada de pestanejar: não pode haver bug.
Vivo na era da utilidade. Ou entrego cem por cento, ou não sirvo para servir. Com habilidade e destreza, vou me esquivando das armadilhas e fugindo do risco de ser empilhado no monte do descarte, de onde pouco se aproveita.
Às 5h já estou de pé. Tomar banho, tomar café, escolher a roupa. Algo em mim já funciona no automático.
Como no ditado em que qualquer semelhança é mera coincidência, não sou máquina. Sou apenas homem: operário, atendente, comerciário, médico, promotor, advogado, juiz.
Sou aquela pessoa que, a cada dia, precisa se reinventar para entregar mais. Vendo férias, faço hora extra, colaboro com todos, entrego sempre mais e mais, com esmero e dedicação.
Estou disponível a todo instante, com o celular sempre ativo e o aplicativo de mensagens pronto para emitir a notificação da próxima demanda. Entro pela noite, estico nos fins de semana, deixo de lado afazeres pessoais e até mesmo a família.
Troco minha saúde mental por alguns trocados a mais no fim do mês, que mal pagarão os comprimidos. E quase nunca há sequer um reconhecimento pelos resultados entregues.
E não é que eu seja obcecado pelo que faço. Permiti-me viver preso a esse ciclo para garantir a sobrevivência. Preciso seguir sendo um colaborador exemplar e manter meu posto. Não posso ser substituído e empilhado.
Não paro sequer nos momentos de recarga. Sigo processando, combinando ideias, hipóteses, possibilidades. O problema me acompanha e não descanso um instante na busca por sua solução, até que esteja resolvido.
Contudo, sou homem. Ou era homem. Na lógica da produtividade e das metas cada vez mais audaciosas, adaptei-me ao automático. Tornei-me homem-máquina — ou já nem sei mais o que sou.
*Osmar Gomes dos Santos é Juiz de Direito na Comarca da Ilha de São Luís (MA).
Membro das Academias Ludovicense de Letras, Maranhense de Letras Jurídicas, da ALMA – Academia Literária do Maranhão e da AMCAL – Academia Matinhense de Ciências, Artes e Letras.




