Arquivos Mensais: março 2019


      Gostaria de poder neste espaço em branco rabiscar apenas belos poemas e retrato de um mundo idílico no qual tudo é possível. Mas infelizmente os fatos da vida real que se sucedem me impõem a busca da reflexão e a ampliação do diálogo.
 
Há algumas semanas venho analisando alguns acontecimentos e, inquieto, pergunto-me de forma insistente: para onde estamos caminhando? Que rumo adotamos a partir de atos tão bárbaros cometidos gratuitamente? Não falo de forma particular, razão pela qual não pretendo me ater a um caso em especial. Convido o leitor que me acompanha semanalmente para que possa, também, fazer um autoexame de consciência acerca do cotidiano para que esse diálogo possa ter ressonância.
 
Neta articula o assassinato da avó, saca dinheiro da pensão e faz uma festa; rapaz flagra a namorada dormindo ao lado do cunhado após festa e, tomado pela fúria, mata os dois; mulher é assassinada porque denunciou agressão do marido; jovens planejam e executam um bárbaro plano para matar alunos de uma escola; o assaltante que não satisfeito em levar os pertences, dispara a queima-roupa contra a indefesa vítima; jovem em depressão passa uma corda no pescoço e põe fim à própria vida. Em comum? A crueldade na sua essência mais pura.
 
Acontecimentos dessa estirpe têm me tirado o sono ultimamente, muito mais do que o trabalho é capaz de me consumir. Não posso conceber, por exemplo, um pai enterrar um filho, uma filha. Não é a ordem natural das coisas.
 
Naturalmente que a violência não é de agora, está no cerne da nossa evolução. Na antiguidade, povos brigavam entre si pela disputa de terras; estados se digladiavam por riquezas além-mar; nações mediam forças por disputas de mercado e poder frente a um modelo global. Condutas estas que, apesar de reprováveis, tinham um pano de fundo, que, em alguns casos, remetia à própria sobrevivência dos povos.
 
Em contrapartida, o que se assiste nos dias atuais é uma violência desenfreada, sem limites, e totalmente gratuita. Não têm justificativas. Somos os únicos seres dotados de racionalidade e, paradoxalmente, os únicos dispostos a matar o próximo por motivos fúteis e com altas doses de crueldade. Mesmo estando a anos-luz daquela época em que nos digladiávamos, parece estarmos ainda afundados em nossa barbárie existencial.
 
Daí que penso como tema central dessa minha reflexão a forma como os pais vêm educando os filhos. Chego a uma infeliz conclusão de que estamos falhando nessa missão. Na vã tentativa de sermos melhores que nossos pais e avós, caímos no engano de querer satisfazer todas as necessidades de nossa prole com bens materiais que a nós não estavam acessíveis.
 
Há também aqueles pais que trabalham muito e simplesmente não encontram tempo para nada, embora sempre haja espaço para as postagens das redes sociais. Eximem-se da culpa de sua ausência em razão da puxada rotina e buscam suprir tal lacuna com quinquilharias materiais que não conquistam nem confiança nem o amor.
 
Antes de apontar para as tragédias da vida privada, mas que a todos já interessam, devíamos parar e analisar quais caminhos estamos sedimentando para nossos filhos. Debater com os vizinhos, com a escola, com a família é uma forma de traçar uma caminhada segura e equilibrada. Para o bem social, não podemos permitir que toda uma geração cresça cheia de um vazio existencial que a direciona para a tomada de atitudes extremistas.
 
E não falo permitir sob a ótica da imposição, mas da educação, embora não seja eu um pedagogo. No entanto, não consigo internalizar a ideia de educar sem dar limites, sem dizer não. Crianças e adolescentes precisam de regras para crescerem em comunhão com a sociedade que os cerca. Há um mundo fora dos computadores e tablets que merece ser explorado.
 
A escola tem seu papel, é fato. O corpo diretivo deve atuar para inibir práticas como bullying, racismo e preconceito, atuando na promoção do conhecimento e maior integração. Mas a escola somente não é capaz de formar o cidadão. Incutir nos jovens que eles são detentores de direitos, mas que os deveres não podem e não devem ser negligenciados na relação com o próximo é papel de todos e, fundamentalmente, das famílias.
 
Mais do que qualquer outra instituição é dos pais, da família, o compromisso de estar sempre presente, compartilhar do dia-a-dia, acompanhar o desenvolvimento na escola, praticar atividades esportivas, assistir bons filmes juntos. Está aí um atalho para conquistar a confiança que se precisa.
 
Daí por diante é repassar ensinamentos de que o mundo funciona de forma sistêmica, onde nossos atos implicam em consequências. Criar, desde cedo, senso de responsabilidade é tarefa árdua, mas necessária. Ensinar a amar, ter compaixão, ser generoso e colaborativo ajuda a derrubar os muros que aprisionam os jovens em calabouços sombrios.
 
Os jovens estarão mais propensos a reproduzir na fase adulta aquilo que absorveu da sua família quando criança. Não se pode esperar uma pessoa afetuosa, honesta, gentil, respeitadora e que zela pelo bem comum, se esses valores morais e éticos não estiveram presentes em sua formação. Nesse ponto, ouso dizer que, com raras exceções, a matemática social é exata e traz um ingrediente rousseauniano.
 
Assim, a violência vista aos quatro cantos do país também está na conta de cada um de nós. Naturalmente, não se exclui a responsabilidade do Estado, que é vital na manutenção da paz social, mas a segurança, tal como dito em nossa Carta Magna, é dever de todos. Portanto, cabe a todos repassar às gerações futuras os valores capazes de reedificar uma sociedade justa e igualitária.
 
Longe das ficções – onde brigamos contra alienígenas, máquinas e até dinossauros pela nossa sobrevivência –, na vida real o único que pode pôr em risco a espécie humana está diante do próprio espelho. Não sei por onde nos perdemos nesse tortuoso desafio, mas é preciso que encontremos urgentemente um atalho que nos leve de volta ao caminho da paz.

 

Osmar Gomes dos Santos, Juiz de Direito da Comarca da Ilha de São Luís; Membro das Academias Ludovicense de Letras, Maranhense de Letras Jurídicas e Matinhense de Ciências, Artes e Letras.


         Nada mais necessito. Alimento-me da palavra, das ideias, das ilusões fugazes de um mundo que vai do real ao abstrato no simples limiar do pensamento. Sou poeta, escritor, literato, ensaísta ou apenas um entusiasta das palavras. Uma folha de papel e um lápis são as ferramentas que me bastam.
 
Sentado na calçada, sob uma marquise; ou à sombra de uma árvore, no banco de uma praça; nada mais preciso. Apenas os meus instrumentos são suficientes. Uma folha em branco que logo pode se transformar em uma macabra história, de narrativa sombria, digna de ocupar as mais lidas páginas policiais.
 
Nela transcrevo o real, a vida nua a crua, a história da vida como ela é. Uma vida sem dó nem piedade, que castiga e oprime. Que segrega, que mata, seja por causa da atuação, da cor, do sexo, das opções sexuais. Por ela mostro a realidade, a escassez, a aridez do sertão, os pés descalços e rachados que marcam a falta de oportunidades nas mãos calejadas do sertanejo.
 
Na folha de papel coloco as dores do povo baixadeiro, que conhece cada palmo dos segredos da sua peculiar natureza. Das secas aos alagamentos, do vai e vem nos campos, a pé ou de canoa, em busca do alimento diário. Escrevo o voo sorrateiro da jaçanã, a escapada da piranha que não se deixa alcançar pela malha da tarrafa.
 
Escrevo a infância. Uma infância sofrida, que levanta cedo, que trabalha na lavoura, que edifica a casa, que se aventura na pesca. Mas que também é criança, do sorriso maroto, da alegria escancarada, a ingenuidade peculiar que corre de pés descalços para driblar as adversidades da vida com uma velha bola de meia improvisada.
 
Na folha de papel escrevo a vida. Uma linda e bela mensagem daquelas que falam de quem faz o bem sem ver a quem. Ou mesmo deixar marcada, para que não se apague, a chama ardente de uma linda e platônica história de amor que faria qualquer Shakespeare suspirar e, tal como ele, se eternizar na literatura romântica ao longo dos séculos.
 
Papel. Nele, até a mais ácida crítica é rabiscada em rebuscados versos, cujo simples inverso encontra mais significado do que a mais explicita literalidade. Nada mais preciso, além das apreensões imprecisas represadas pelo olhar já quase cansado de uma vida que desfila carregada de narrativas que só querem ser dissertadas.
 
Uma folha de papel, um lápis. E aquele momento desapercebido, que não mais existe, passa a existir para posteridade. Escrevo, logo existe. Pode ser branca, amarelada, amassada, rasgada ou aquele velho e cinzento papel de pão. Nas mãos do poeta, a mágica ganha vida para que o bailar das letras transforme em colorido aquilo que é captado em preto e branco do antagônico cotidiano.
 
É a folha que nos acompanha ao longo de toda a vida. Nela é impressa nossa primeira marca, nosso nome. Acumulamos papeladas para tudo que fazemos em nossas relações sociais, aqueles que nos impõem deveres, bem como os que nos asseguram direitos. Assim como aquele que encerra nossa breve passagem sobre este chão.
 
É o papel do jornal matinal que nos informa, do livro que transporta conhecimento aos quatro cantos. Que permitiu a criação do mundo virtual, paralelo, que também tem os seus “papeis”, ainda que não tangíveis. O mundo só é mundo, real ou virtual, porque alguém ousou rabiscar as primeiras doses de conhecimento, permitindo a evolução da sociedade.
 
Apenas papel? Depende. Em branco, apenas papel. Mas certamente um convite para que uma imensidão de ideias pensamentos possam ser ali concretizados. Como cantou o poeta, numa folha qualquer se desenha um sol amarelo, uma luva, um castelo ou um guarda-chuva. A folha de papel é o quintal da imaginação, com um fim que ninguém sabe onde vai dar, se não tentar.
 
Não deixe a vida passar em preto e branco. Sempre haverá tempo de colorir o próprio arco-íris, de contornar as próprias nuvens, carregadas de angústias, de alegrias, de aspirações, de conquistas. Aqui, mais um papel, uma simples folha de papel que, só de birra, teimei em não deixar em branco.

 

Osmar Gomes dos Santos, Juiz de Direito da Comarca da Ilha de São Luís; Membro das Academias Ludovicense de Letras, Maranhense de Letras Jurídicas e Matinhense de Ciências, Artes e Letras.


 

         Transitar pelas ruas e avenidas da nossa querida São Luís tem sido uma tarefa cada vez mais difícil para os pedestres, em razão do aumento do número de carros nas duas últimas décadas. Por mais que planejamentos sejam feitos e projetos sejam executados pelo poder público, o cidadão ainda encara a mobilidade urbana como um grande desafio.
 
Seja com o objetivo de se locomover até o trabalho, resolver assuntos particulares, ir para escola ou mesmo a lazer, o cidadão ludovicense precisa encarar o fato de que está em uma cidade grande e que a mesma sofre os impactos de uma metrópole. Esteja em veículo próprio, a pé ou no transporte público, o cidadão certamente vai se defrontar com os gargalos no trânsito e os efeitos negativos trazidos à sua vida.
 
A quantidade de veículos em São Luís, segundo o Detran, é de 400 mil veículos, incluindo motos, carros, camionetas, caminhões e ônibus. Mas a frota diária em circulação pode facilmente superar os 460 mil veículos, se forem consideradas as frotas de todos os municípios da ilha somados. Isso porque o deslocamento intermunicipal é diário e permanente, sendo um fator a considerar quando se fala de mobilidade na capital maranhense.
 
Nesse emaranhado de máquinas de aço que se movem por todas as direções, o pedestre continua sendo a parte mais frágil frente aos meios de transporte. Refletindo sobre o tema, cheguei a conclusão de que, enquanto os veículos voadores ainda não saíram da ficção para o real, há pelo menos uma opção viável que certamente trará benefícios, tanto para pedestres, quanto para motoristas: a boa e velha passarela.
 
Antes que os mais céticos digam que é inócuo pensar essa alternativa para nossa capital, visto que uma antiga experiência não dera certo, peço a devida vênia para abordar o assunto sob a ótica de uma cidade que cresceu em população e número de veículos.
 
Diferentemente da São Luís da década de 1990, quando uma passarela colocada em frente ao Terminal Rodoviário não era atrativo para os pedestres, que insistiam em se arriscar em uma travessia ainda pouco arriscada, a cidade de hoje apresenta perigos comuns a qualquer cidade grande. Como disse acima, o número de carros cresceu assustadoramente nessas duas últimas décadas e o resultado disso foi a elevação dos índices de congestionamentos, acidentes e atropelamentos.
 
Apenas para exemplificar, na capital, quase 50% das mortes no trânsito em 2018 foram de pedestres, 32 vidas só no ano passado. Na região metropolitana esse número chegou a 78 óbitos em 2016. Chama atenção, também, as centenas de acidentes que não resultam em óbitos, mas deixam sequelas físicas e psicológicas por toda uma vida.
 
No uso dessa travessia, a segurança das pessoas é o maior benefício, uma vez que os atropelamentos não ocorrem. Naturalmente não se pode encher a cidade de passarelas, mas tão somente naquelas vias onde, em regra, a velocidade costuma ser mais elevada e onde há maior incidência de atropelamentos, a exemplo das principais avenidas que cruzam extensas áreas da capital ou mesmo daquelas que ligam a outros municípios da Grande Ilha.
 
Daí porque entendo que uma política que vise dar ainda mais segurança às pessoas que se locomovem pela cidade é necessária, razão pela qual defendo o uso das passarelas. As últimas intervenções recentes no trânsito de São Luís foram bem-vindas e melhoraram o fluxo em alguns pontos. O uso da passarela pode ajudar ainda mais nesse ganho de tempo, que hoje é desperdiçado nas ruas e avenidas.
 
Esse tipo de passagem, tecnicamente chamada de travessia em desnível, pode contribuir para a melhoria do fluxo nas principais vias da cidade. Com a instalação das passarelas em locais de grande travessia de pedestres – como hospitais, shoppings, escolas, faculdades e áreas comerciais – haverá a consequente eliminação de inúmeros semáforos ao longo das avenidas, permitindo maior fluidez ao trânsito.
 
O tempo que uma pessoa gasta no deslocamento de um bairro mais afastado até a região central pode chegar a uma hora e meia. Com a eliminação de um sem número de semáforos e a instalação de passarelas esse tempo poderia, em tese, ser reduzido para até uma hora e o pedestre não gastaria mais de um minuto para atravessar uma simples passarela para chegar ao seu destino com segurança.
 
Ao se eliminar os semáforos, também se diminui os gastos com manutenção preventiva e corretiva desses equipamentos, além dos transtornos ocasionados por eventual funcionamento inadequado.
 
Por fim, ressalto que não basta o poder público fazer a sua parte. O cidadão precisa se inserir na política de mobilidade urbana e incorporar a medidas que vêm para seu benefício. É necessário que a sociedade estabeleça uma espécie de pacto urbano, no qual cada cidadão passa a ser não apenas um beneficiário, mas um agente promotor das boas iniciativas.
 
Já que estamos em ritmo de carnaval, vamos colocar o bloco nas ruas e abrir alas para a vida, para a paz e a segurança no trânsito. A vida pede passagem e uma passagem segura. Podemos todos fazer juntos.

 

Osmar Gomes dos Santos, Juiz de Direito da Comarca da Ilha de São Luís; Membro das Academias Ludovicense de Letras, Maranhense de Letras Jurídicas e Matinhense de Ciências, Artes e Letras.